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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Que tal conhecer melhor O Mundo Desde o Fim?



Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto)  e Antônio Cicero


Foi lançado em '95 o livro do filósofo, compositor e poeta Antonio Cicero, "O Mundo Desde o Fim", publicado pela editora Francisco Alves.
Em "O Mundo Desde o Fim", se discute questões como a modernidade e o pensamento de Hegel. Este é o primeiro livro de filosofia do escritor, que também já publicou os volumes de poesia "Fullgás", "O Último Romântico" e "Inverno".
O livro é uma reflexão sobre a modernidade. "Existe uma concepção moderna do mundo?
Foi dessa pergunta que parti", diz Cicero. "À primeira vista, existem diversas concepções modernas do mundo, mas a minha conclusão é que é possível encontrar um conceito rigoroso de modernidade."
Para Cicero, esse conceito vem do "reconhecimento do agora como essência do mundo".
Ser moderno, segundo ele, é admitir a transitoriedade das coisas e o subjetivismo das interpretações.
Os fundamentos das concepções do mundo anteriores à modernidade eram coisas exteriores e positivas, como nação, Deus etc", diz. "A descoberta da modernidade é a consciência do fundamento subjetivo e negativo do mundo."
Assim, diz Cicero, não há lugar para "utopias positivas" na modernidade. O único projeto coletivo que se pode ter é garantir a todos condições materiais mínimas para a fruição das liberdades individuais, das utopias subjetivas, características da modernidade."
Cicero considera que sua opinião de que há um fundamento absoluto na modernidade é um paradoxo, mas que o problema da filosofia contemporânea é que "ela não leva a sério os paradoxos".
Letrista, irmão da cantora Marina, e autor dos poemas de ``O Último Romântico" e ``Inverno", Cicero acha que a discussão sobre a modernidade proposta no livro permite rediscutir o relativismo do pensamento contemporâneo.
"O relativismo é uma manifestação da modernidade que, porém, esquece o fundamento sobre o qual ele é possível: o reconhecimento do agora como absoluto."


Q: Seu livro tem um título curioso: "O Mundo Desde o Fim".
Antonio Cicero - Estudei russo quando adolescente. Cheguei a ler bem livros de marxismo soviético e, embora nunca tenha encarado Tolstói no original, lia razoavelmente escritores como Tchekov, Dostoiévski e Gógol.
No final da década de 80, Luciano Figueiredo me pediu para lhe traduzir o título de um livro da vanguarda russa do começo do século que, transliterado, seria "Mir S Contsá".
Com meu russo enferrujado, na mesma hora traduzi como "O Mundo Desde o Fim".
Depois, vi que a tradução adequada seria, como a tradução inglesa, "The World Backwards", "O Mundo de Trás Para a Frente".
Mas Luciano percebeu que, por um estranho acaso, a má tradução do russo era uma boa tradução do meu modo de pensar, de modo que, ao fazer um retrato meu, ele pintou um livro imaginário, de que eu seria o autor, intitulado "O Mundo Desde o Fim".
Agora, torna-se real esse livro imaginário.

Q: Desde o fim de quê? Do próprio mundo? O mundo acabou?
Antonio Cicero - Eu gosto justamente da ambiguidade desse título. Se você o interpretar como "O Mundo Desde o Fim do Mundo", isso significa que o fim do mundo não é, afinal de contas, o fim do mundo.
Alexandre Koyré escreveu um livro esplêndido chamado "Do Mundo Fechado ao Universo Infinito". Essa obra se refere à substituição da cosmologia, astronomia e física medievais, aristotélico-ptolemaicas, pela cosmologia, astronomia e física modernas, copérnico-galileo-newtonianas.
Se pensássemos não tanto em cosmologia, astronomia e física, mas em lógica, ontologia, epistemologia e axiologia, o título do livro de Koyré seria adequado para substituir "O Mundo Desde o Fim".
Mas este último título também me interessa porque tenho a convicção - e tenho a convicção de haver provado - que a modernidade não pode ser ultrapassada, pois se trata de algo atemporal, que é a essência do agora.
Creio ter também provado que aquilo que chamamos de "época moderna" é a época em que se manifesta inequivocamente o caráter absoluto da modernidade. A época moderna não pode ser superada e é bobagem falar de "pós-moderno".

Q: Então o fim de que o senhor fala é o fim da história?
Antonio Cicero - Meu livro investiga a modernidade. No entanto, na maior parte do mundo ainda estamos longe de sermos, para usar a expressão de Rimbaud, "absolutamente" modernos.
Por isso, mesmo que a história não passasse da transição da época pré-moderna para a época moderna, ainda teríamos muita história pela frente.
Mas nada impede que, a menos que arbitrariamente definamos história como exclusivamente a passagem da época pré-moderna para a época moderna, haja história mesmo na época moderna.
Por outro lado, a época moderna pode ser considerada como o fim da história, se tomarmos "fim" no sentido de "telos" coletivo da humanidade. Cumprido esses "telos", não haveria outros fins universais, e sim fins individuais ou particulares. Isso representaria a possibilidade da multiplicação indefinível dos fins.
Analogamente, o fim do mundo pode significar a multiplicação dos mundos. Tal é, efetivamente, o sentido da modernidade.

Q: Como o senhor se interessou pela questão da modernidade?
Antonio Cicero - Essa é uma questão obsessiva para os brasileiros, que normalmente querem ser "modernos", seja lá o que isso signifique, e lamentam que o Brasil não consiga ser suficientemente moderno.
A modernidade é confundida com a tecnologia, com o desenvolvimento econômico, ou com o neoliberalismo.
O Brasil, que na década de 30 se considerava o país do futuro, hoje se envergonha desse rótulo, que se tornou insípido, mas não se sente ainda - praticamente no ano 2000 - um país moderno, isto é, um país do presente.
Todas essas questões também me afligem. Tal problema é a fonte da necessidade da filosofia. Por isso, neste momento, o Brasil tem que ser capaz de produzir filosofia.

Q: Qual é o principal resultado de seu livro?
Antonio Cicero - Ao contrário do que se pensa vulgarmente, a modernidade não é um fenômeno histórico, algo que pode haver ou não haver. Sempre e necessariamente há modernidade, pois ele é a essência do agora, algo que poderíamos chamas de "agoralidade".
Com efeito, não é errado dizer que a modernidade é o absoluto. Ela constitui o fundamento ontológico negativo e subjetivo do mundo.
Por outro lado, o que pode haver é o conceito da modernidade. A modernidade enquanto tal pode não aparecer para nós.
A nossa época não é a época em que surge a modernidade, mas a época que se chama de moderna, a época que se dá conta da modernidade e a tematiza, isto é, a época em que a modernidade deixa de ser simplesmente em si e passa a ser também para si, a época que se dá conta do fundamento negativo e subjetivo do mundo.
A descoberta da modernidade é a descoberta do absoluto. Este se encontrava alienado em diferentes objetividades ou positividades.

Q: Mas normalmente a modernidade é identificada com o relativismo.
Antonio Cicero - Trata-se de um equívoco. Ao contrário do que se pensa, conceber a modernidade é conceber o absoluto.
Esse absoluto porém, ao contrário do absoluto teológico, não tem nenhum conteúdo positivo.
Trata-se de um absoluto negativo ou de uma negatividade absoluta. Em tal absoluto baseia-se uma concepção de mundo que pode ser classificada como o fundacionismo negativo, que é a concepção moderna do mundo.

Q: Sua proposta é examinar a modernidade de modo isento, sem julgamento de valor ou, como parece, o senhor toma o partido da modernidade?
Antonio Cicero - De fato, comecei a pensar na modernidade como se fosse uma realidade entre outras.
Indo até o fundo da questão, acabei me dando conta de que a modernidade não é uma realidade entre outras, mas a efetividade absoluta e negativa em oposição a todas as realidades relativas e positivas.
Contra o notório relativismo e o contextualismo banal que de nossa época, essa descoberta se demonstrou apodicticamente como constituinte da verdade absoluta. Mas reconhecer uma verdade já é estar do lado dela.

Q: Sua terminologia parece hegeliana.
Antonio Cicero - Não sou hegeliano, mas o desafio de Hegel foi decisivo na elaboração dos conceitos que me permitem compreender a modernidade.
Critico longamente Hegel em meu livro, mas não posso deixar de empregar algumas de suas categorias - como a do absoluto e a da negatividade.

Q: Não há em seu livro diálogo explícito com os pensadores contemporâneos. Por quê?
Antonio Cicero - Se distinguirmos, por um lado, o método de produção e, por outro, o método de exposição da teoria, diria que o diálogo com pensadores como Deleuze, Derrida, Apel, Habermas, Rorty, Vattimo etc. é decisivo no primeiro, mas não no segundo.
Sinto que meu pensamento se opõe radicalmente a todas as maneiras contemporâneas de fazer filosofia.
Percebi, porém, que num primeiro livro seria errado discutir explicitamente com todos eles, pois me enredaria num processo infinito de tentar justificar as minhas diferenças, de modo que acabaria não tendo oportunidade de expor em primeiro plano as minhas próprias idéias.
Isso acontece muito com professores de filosofia. O fato de não pertencer à academia me libera da obrigação de aceitar as regras vigentes de fazer filosofia, isto é, me exime de ter que me fazer eunuco para melhor proteger o harém dos discursos já estabelecidos.

Q: O senhor continua compondo música?
Antonio Cicero - Sim. Acabo de fazer uma letra em inglês para uma canção cuja música está sendo feita por Philip Glass, para o filme de Monique Gardenberg, que inventou essa parceria.
Orgulho-me muito da canção que fiz com Adriana Calcanhoto, "Inverno".
Adoro música mas às vezes sinto que a presença dela se tornou maciça demais nos dias de hoje.
Ouve-se música na rua, no táxi, no elevador, no avião, na academia, no escritório, no ateliê, na loja, na praia, em casa etc. Os médicos, os psiquiatras recomendam música o tempo inteiro.
Prefere-se música vulgar à ausência de música. Recomenda-se que as mães grávidas ouçam música. Isso tudo é uma estupidez.
Música não é uma coisa neutra, que combine com todos os conteúdos.
 Música é essencialmente ritmo, que divide o tempo de determinada maneira. Como dizia Sêneca, tudo é alheio, só o tempo é nosso.
Kant considerava o tempo como a forma do sentido interno.
Por que seria sempre bom alienarmos incessantemente o que nos é mais íntimo? Por que não podemos ser capazes de apreciar os sons aleatórios e soltos que nos são brindados por aquilo que chamamos de "silêncio"?
Por que não podemos prestar atenção à maravilhosa anti-música - que no entanto pode ser música em certo sentido - dos nossos próprios pensamentos?

                                                                                                   (por ALEX VARELL)

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