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sábado, 6 de agosto de 2016

TEATRO exibe olhar sobre o tema da dominação e do assédio moral

por moisemonteirodemeloneto
Assistir à peça CONTRAÇÕES fez de mim uma pessoa melhor. O teatro faz isso comigo. Acompanho o movimento teatral do Brasil há décadas. Sempre que viajo pelo mundo eu vejo teatro em outros países também. Lembro das minhas incursões pelo teatro no mundo árabe, na “Broadway” do Cairo. Ontem testemunhei Yara de Novaes, a quem conheci, há alguns anos no Recife, e Débora Falabella (já a vi em cena com Noites Brancas, texto baseado no romance da fase romântica de um dos meus mestre na adolescência, Dostoievski) numa das melhores experiências, não somente na dramaturgia, mas também da encenação, cenografia (André Cortez), iluminação (Alessandra Domingues) , trilha sonora (Dr. Morris). O texto de Mike Bartlett, traduzido por Sílvia Gomez, mais do que uma grande construção, é uma radiografia do ser humano das mais cruéis que já vi em cena. Escolher e interpretar um texto desse tipo faz de um ator um sacerdote. Débora e Yara receberam o prêmio APCA de melhor atriz em 2013. A priemira interpreta Emma, funcionária e perseguida ferozmente por sua chefe numa magnífica empresa. A direção de Grace Passô usa o imbróglio criado pelo dramaturgo inglês, Bartlett (um nome a ser escrito com fogo)  para atingir com maestria situações de pressões intensas, na corrida por um salário ótimo, e para praticamente oferecem, como a maioria de nós, em holocausto (com o perdão da esdrúxula comparação). 

São desferidos vários “golpes de teatro” (do francês coup de théâtre, golpe de teatro, peripécia,acontecimento imprevisto; alteração súbita de uma situação, tal como acontece no desenrolar de uma peça teatral), como na hora em que Emma, já transtornada pelo assédio em seu nível mais profundo que um empregado pode sofrer, pergunta à chefe: “você me convenceu que não haveria emprego melhor não foi?”, e esta, depois de uma pausa que me lembrou a interpretação (e caracterização) de Sean Young em Blade Runner, filme baseado em um romance de Philip Dick, que eu adoro, diz, gélida um ambíguo “não”, existencialista.




Sean Young, como Rachel, em Blade Runner

O que estamos fazendo com nossas vidas para ganhar o pão nosso de cada dia é levado à cena de maneira crua e fria. TODOS OS RISOS DA PLATEIA FORAM NERVOSOS, estranhamente nervosos. É um tiro certeiro que chega ao patético quando Emma desenterra o bebê, pois a chefe diz que uma certidão de óbito não basta. O fato do algoz não ter nome é inquietante (você pode colocar aquele chefe cruel que todos já tivemos ali, naquele drama poderoso'. Falar em sistema opressor parece pouco diante da magnitude da visão de mundo deste autor, desta obra. Saímos chocados e fomos a um restaurante japonês ainda sem acreditar no que tínhamos visto. Maldade e entrega (con)fundindo-se naquele momento teatral tão profundo e sintético. Yara deu um depoimento que esclarece o que sinto em relação ao espetáculo: “não me deixo afetar pela maldade de minha personagem; eu a represento, apenas. Não me misturo com ela. Personagens como a Gerente precisam ser representadas para que nós e o público reflitamos sobre o seu papel social. Não há nela nenhuma psicologia ou interioridade, uma história pessoal, questionamentos existenciais, etc. Ela é a representação de um sistema manipulador e opressivo. Fico muito feliz em expor publicamente personagens desse tipo''.
Emma vai à bateria e improvisa solos musicais devastadores. A direção expõe os técnicos como figurantes de luxo de uma cena incrível em sua precisão e astúcia. Os efeitos com fumaça, por exemplo, são, digamos assim, tantalizantes. E os truques que exibem o terror e, talvez a necessidade da psiquiatria, são tão intensos que beiram o ridículo, o absurdo, o insólito...


O terror e o insólito mesclados a uma lógica descontrutivista de alto quilate: CONTRAÇÕES, Emma bota para fora o que muitos ocultam na luta pelo sucesso




Não é só o trabalho que é colocado em xeque. É o ser humano, de maneira atroz e, horror dos horrores: DIVERTIDA. Triste de quem sorrir. Parece a cena que Hamlet segura o crânio de Yorik. Cruzes!


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