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segunda-feira, 18 de julho de 2016

ALMODÓVAR, PEÇA SOBRE PAULO FREIRE E A ALICE DO PAÍS DA TRUPE DO BARULHO

por moisesmonteirodemeloneto



Em torno dele, Julieta se enrosca e procria, a partir de uma pegação num trem




Fim de semana sacudido: duas peças de teatro e um filme de Almodóvar (agora assina só assim) chamado JULIETA. Vamos logo a ele. Por que conhecer e aplaudir este diretor? Ele nos traz a vida  pulsante, latina como nós,  é exemplo de resistência e riso, novamente temos o tema  do relacionamento entre mãe e cria. E ele dá um banho ao exibir seus conhecimentos sobre o universo feminino através da professora de Literatura (!) Julieta e sua filha (que a abandonou) Antia (com roteiro, baseado na obra de Alice Munro, Prêmio Nobel de Literatura em 2013); criticaram a pegada “revisar a vida através de uma espécie de carta, disseram que Almodóvar vinha mal e estava pior imitando a si mesmo. Bobagem. É um filme delicioso, cheio de referências fundamentais para entender o pop espanhol. Assisti no Cinema do Museu, cheio de esnobes descolados (faltou energia elétrica duas vezes e fui obrigado a assistir a cena do retiro espiritual três vezes; ah, os Pirineus!). O diretor trabalha com audácia o que seria o assim chamado equilíbrio emocional, algo que hoje em dia parece balela. A sensualidade é abordada com aquele molho de abafar, cheio de cores e imagens da natureza e dos interiores (sim, há algo de Bergman por ali, algo de Woody Allen, mas acima de tudo algo que é só de Almodóvar).



Júnior e Daniel: ao mestre com carinho


Agora vamos ao teatro no Recife, hoje. Mas antes uma aula básica sobre o tema da peça: PAIDEIA na Grécia antiga (ver Platão, A República), trata da libertação através da virtude e... verdade, que fariam o homem gozar tão sonhada liberdade e ser (ah, que utopia?) dono do próprio destino (ainda acho que injustiça é uma coisa cósmica, quando disse isso na apresentação, sim os atores buscam uma interação, que não foi aprofundada, com a plateia, Daniel Barros, um dos atores, riu). A peça é sobre o educador Paulo Freire, perseguido pelos militares no golpe de 1964 (mas não faltaram textos como “volta, querida, ou “fora Temer!” numa analogia com a situação atual do nosso país).  Trabalhar na desconstrução de ídolos da mentira e da falsidade, tratar sobre o que é a ideologia, é delicado, sem afogar-se num mar de clichês. Há um pouco do teatro narrativo, entre o épico e o didático. 
O teatro Arraial Ariano Suassuna, rua da Aurora, Recife, estava mais ou menos com 80% da sua lotação, umas 60 e poucas pessoas, um público conquistado antes que ele saísse de casa. O método de Sócrates,  a maiêutica, baseia-se em perguntas e respostas (relação dialógica com os educandos). Paidéia é, portanto, um teatro que se propõe dialógico. Paulo Freire queria a educação como exercício da liberdade (ah, o oprimido!), unir conteúdo, método e finalidade da prática numa utopia, esperança renovável.

Daniel Barros e Júnior Aguiar trabalham o exílio de Freire por 16 anos pela América Latina, Europa e África e esbarram na tarefa de mostrar educação como “instrumento essencial na transformação da humanidade”, bom, bonito, mas, com cuidado de não ser castradora, não “reprovar”, nem exigir a simples “reprodução de que está estabelecido”. Falar é bom.O método Freire já recebeu várias críticas, seu autor é poético e enfrentar o  Serviço Nacional de Inteligência, como Paulo fez, não é fácil. Da saída dele do Brasil à volta do exílio, a tentativa de transformar a plateia em sala de aula, intercalar isso com trilha sonora e depoimentos como o de Miguel Arraes é tarefa que passa por terreno movediço e a plateia não teve muita voz, não.
Esse é o segundo espetáculo da chamada Trilogia Vermelha, chama´se pa(IDEIA) – pedagogia da libertação , encenada pelo Grão Comum. Vi a primeira, também; era sobre Glauber e citava meu objeto de estudo no Doutorado Jomard Muniz de Britto. Essas obras, segundo Júnior,  “reabrem novos “diálogos-dialéticos-críticos-criativos sobre as dimensões da nossa identidade contemporânea, reagrupando e relendo a importância de consciências locais, regionais, nacionais e internacionais”; pode parecer pretensioso, pode parecer ingênuo, mas é um exercício de cidadania que está faltando em nosso teatro. Parece que o próximo espetáculo é sobre Dom Helder Câmara. Vamos lá!

Agora vamos ao terceiro produto cultural consumido por mim nessa maratona de julho de 2016: trata-se de um espetáculo teatral de um grupo de atores que Aurino Xavier participa há 25 anos, trabalhando a comédia popular ; falo da Trupe do Barulho (babado!) . Depois de duas décadas e meia, a companhia continua em atividade, enfrentando muitas dificuldades, como falta de espaço na mídia (SIC) ; eles continuam no seu berço:  o Teatro Valdemar de Oliveira (para ir ao banheiro tive que subir dois andares e atravessar salas que amo, no interior daquele templo que já foi a casa de Diná. 

Allyce no País das Marabibas é espetáculo comemorativo de 25 anos da Trupe do Barulho. Crédito: Ricardo Fernandes/D.P./D.A. Press

Trupe do Barulho: Bodas de Prata


A segunda peça é: Allyce no País das Marabibas, a Trupe volta a se utilizar as histórias infantis para escrachar o que seria a vida dos homossexuais. Fillipe Enndrio, assina o texto e exigiu ser o protagonista, ele é muito simpático e trabalhou essa comédia cheia de  improvisos, e a plateia, como eu sentenciei nos anos 90, pronta para rir de si mesmo fui o primeiro a tratar da Trupe em termos acadêmicos, no Jornal do Commercio (foi aí que os conheci, pensei que não iam gostar do meu artigo: amaram!)  . “Este foi um texto que escrevi há tempos atrás e o grupo se interessou em montar no fim do ano passado. O final foi escrito coletivamente e os nomes dos personagens foram modificados. A Rainha de Copas se tornou a Rainha de Paus, o Chapeleiro Maluco vira o Cachaceiro Maluco e assim sucessivamente”.



O Cachaceiro Maluco, o C"u"elho e Allyce: auê no Valdemar



O autor afirma: “A Rainha de Copas se torna a Rainha de Paus e manda castrar todos os homens do reino e só Allyce, vinda direto do Alto José Bonifácio, pode pará-la, pois sabe de um segredo de Sua Majestade”. Aí ela vai ao tal País das Marabibas e “vive” as mais variadas aventuras. Além de Fillipe, o espetáculo conta mais seis atores: Aurino Xavier, Jô Ribeiro(Divina), o próprio diretor, Thiago Ambrieel (na Trupe desde 2012), Saulo Máximo, Carlos Mallcom e Ricardo Silva. 

 


Ulisses Dornelas, vive de Teatro no Recife, aqui ao lado de  Moisés Neto



É ou não  de resistência? São os únicos, atualmente no Recife, que fazem temporada que duram meses, o outro, na linha infantil, é Ulisses Dornelas. ELES NÃO USAM LEIS DE INCENTIVO À CULTURA E SÃO CONSIDERADOS À MARGEM do que se chama por aqui de “alta cultura”.
RISOS E SISOS.



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