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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Miró e Moisés Monteiro de Melo Neto: poesia, sempre, Pernambuco sob os pés, mente na imensidão...

Sempre um prazer estar com Miró, sobre quem pretendo escrever uma peça de teatro (André Telles Do Rosário, cadê você?), este poeta pernambucano que escreve poemas pra gente desde 1985, tem mais de 7 livros lançados por este Brasil afora: Que descobriu azul anil (1985), Ilusão de ética (1993), Entrando pra fora e saindo pra dentro (1995), Quebra a direita segue a esquerda e vai em frente (1997), São Paulo eu te amo mesmo andando de ônibus (2001), Poemas pra sentir tesão ou não (2002), Pra não dizer que não falei de flúor (2004) e recitais por todas as esquinas.
Miró foi tema da tese de mestrado de André Telles Corpoeticidade: Poeta Miró e sua literatura performática, na Universidade Federal de Pernambuco.
A poesia dele tem um certo toque de crônica e ele gosta de dizer que não tem papas na língua, no sentido de usar palavras difíceis para que o engraxate e a mulher que vende tapioca na rua entendam.
Eis um dos seus poemas:
CARLA
Conheci Carla catando lata
seus olhos brilhavam
como alumínio ao sol
São Paulo ardia num calor
de quase quarenta graus
pisou na lata,
como pisam os policiais
nos internos da Febem
jogou no saco
com a precisão
que os internos jogam
monitores dos telhados
e rápido foi embora,
tal qual seqüestro relâmpago
deixando a lembrança de um tempo
que não havia
seqüestros,
Febem,
nem tanta polícia,
muitos menos
catadores de lata
Os olhos de Carla
Nem desse poema precisavam.
Vemos o cotidiano esmagador ao som de uma lira incandescente. Nascer na Encruzilhada e morar no bairro que teve o lixão mais famoso da periferia do Grande Recife. Nem assim se deixou contaminar. Antes reviu tudo de forma também forte. Ele acha que os poetas devem parar de reclamar e fazer. Procurar espaços alternativos para divulgar os seus escritos longe dos mauricinhos brancos querendo resgatar a cultura popular. Prefere a postura "anti-istema". Sua pobreza suburbana deu-lhe um olhar com consciência de classe, revolta.
Sobre o seu trabalho, ele revelou à Agenda Cultural da Prefeitura do Recife: "Quando o André me escolheu para ser tema dessa tese, eu já vinha fazendo isso há muito tempo na rua, e sendo conceituado, sendo querido. Uma questão fundamental na história: fui muito conhecido, tive muita fama na rua, como P.F. (prato feito) de graça, minha poesia é exatamente a cara do ser humano na rua. Quando perguntam a mim: `Miró, o que você diria a um poeta novo?´, eu respondo: `Ande de ônibus, olhe pela janela do ônibus, seja observador, olhe as pessoas na rua conversando´. Eu escrevo só sobre isso, só que tem imagens poéticas e apuradas porque já faço poesia desde muito tempo. Você já levou sua poesia para a rua muitas vezes. Quais são as experiências pelas quais você já passou recitando poesia em espaços públicos? Muita coisa. Já passei pela experiência de estar falando em um poema: `o domingo era o dia mais feliz antes de Norma beijar um outro na boca´, e uma mulher disse: é gaia! Já levei mão na cara em Juazeiro da Bahia quando eu fazia isso, hoje em dia não faço mais, hoje eu sou convidado, mas quando eu comecei eu não podia ver cinco pessoas na rua que subia na mesa. Já fui aplaudido de pé em Niterói. O artista de rua passa coisas que nem Deus acredita. Ele vai ter aplausos, beijos de mulheres, vai ter casa pra dormir como eu já tive. A poesia me fez conhecer o Brasil, conhecer nossa gente, eu conheço quase o Brasil todo, a poesia me salvou, cara. Agora eu preciso ganhar dinheiro pra poder cuidar da minha mãe, dona Joaquina, que tem 82 anos, morar numa periferia onde todo mundo me ama, e chegar lá e ser considerado pelos policiais, pelos amigos, pela vizinha de baixo que nunca quis falar. Eu faço camisas, cartões-postais e não trabalho de segunda a sexta em lugar nenhum, eu nunca disse isso: desde 1985 que eu não saio de segunda a sexta pra canto nenhum tendo que ir, e fazendo poesia em um país que não lê."
Quanto à série Marginal Recife (série de quatro livros, com dez poetas cada, publicada pela Fundação de Cultura Cidade do Recife). Heloísa Arcoverde (Gerente de Literatura da FCCR), que viu Miró falando poesia na rua e quando foi pesquisar na prefeitura não achou nada. "Ela me chamou, chamou Cida e Valmir para que juntassem as pessoas que quisessem." Cida Pedrosa tem uma página na net: a Interpoética, há também recitais como o Quartas Literárias. Mas a união de sentar, "essa coisa política", segundo Miró, em Recife não acontece: "Agora tem sim um movimento que é forte e que quando quer bota pra quebrar. Os urbanos não têm paciência para reuniões. Eu sou um. Malungo tem o fanzine De Cara com a Poesia, eu tenho meu livro, Lara bota na internet, Chico Espinhara nunca quis nada com o poder, Érickson Luna era aquilo que todo mundo sabe. E o pior: o poder querendo ajudar. Quem fez o livro de Luna foram os amigos. Há uma coisa no Recife dos poetas urbanos de não quererem muita coisa com o sistema. E o sistema muitas vezes chamou a gente."
Todos os livros de Miró foram feitos de modo independente. O que não significa que recuse apoio de sindicatos. Foi publicado também em Marginal Recife (coletânea da FCCR) e pela "Livros e Letras", do Ceará (a segunda edição de seu único livro que fica em pé, o "Ilusão de ética"). Diz-se dono de uma poesia visceral. Começou a recitar nos anos 80 viajando pelo seu país e encontrando outros como ele. Recitador de Pernambuco, nas lidas do cotidiano, no pega mata e come da vida, de cada minuto. Oprimido, oprime. Ao falar do movimento cultural mais importante dos anos 90 no Brasil, o Manguebeat, Miró sustenta que Chico Science, Fred 04 e outros de sua geração sacudiram Pernambuco, o Brasil e o mundo. Mas que essa história de mistureba, Raul e Alceu já faziam.

                                                   por Moisés Monteiro de Melo Neto


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