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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O artista plástico recifense João Lopes

A arte João Lopes

João Lopes, a dedicação à arte no Recife






Trabalhos (peças) em fibra de algodão hidrófilo






Trabalhos (peças) em renda de coqueiro



Trabalhos (peças) em fibra de madeira Imbiriba





Trabalhos (peças) em barbante de Rami e corda de algodão


Sobre o artista plástico recifense João Lopes e os seus trabalhos




Os artistas João Lopes e Moisés Neto trocando ideias sobre arte há algum tempo







Três Romances de Raimundo Carrero

Por Moises monteiro de melo neto (moisesneto)




Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto) e Raimundo Carrero, 

escritores pernambucanos em diálogo



DADOS BIOGRÁFICOS: Nascido em 20 de dezembro de 1947.É jornalista, ficcionista, bastante supersticioso e temente a Deus. Começou a escrever ainda como aluno interno no colégio Salesiano do Recife. Em seus escritos objetiva aprofundar temas eternos como "liberdade, igualdade e justiça".


1. SOMBRA SEVERA:

Publicado em 1986( Editora José Olympio) , o romance traz o estilo de Carrero, este pernambucano da cidade de Salgueiro, .estampado por todas as páginas :
A ANGÚSTIA DIANTE DA INCOMUNICABILIDADE
O ESTRANHAMENTO DIANTE DO QUE É SIMPLES E COMUM
IMPOSSIBILIDADE DE AMAR COMPLETAMENTE
ÓDIO POR NÃO SER COMPREENDIDO
A QUESTÃO DA FÉ
AS ARBITRARIEDADES DO PODER
ABORDAGEM PSICOLÓGICA
O HOMEM DO CAMPO
A CIDADE PROBLEMATIZADA.
CRÍTICA À INJUSTIÇA SOCIAL
Num dos seus livros encontramos a seguinte epígrafe: "Intuitivamente eu me agarro ao abismo" (Murilo Mendes). Existe um certo fascínio na obra de Carrero em retratar a decadência humana em sua busca de esperança. A desgraça psíquica afeta os personagens movidos por seus fantasmas interiores, agindo como irracionais.
Três personagens dominam a narrativa em terceira pessoa de "Sombra Severa" :
JUDAS - Irmão mais moço de Abel. Prepara um caixão e pede que o irmão se finja de morto enquanto ele" despista" seus perseguidores. Na verdade, Judas odeia o irmão e vai terminar por esfaqueá-lo, dizer que ele morreu num acidente, casar com a mulher que o irmão raptara( Dina).
ABEL - É perseguido pelos irmãos da mulher que ama. Aceita fingir-se de morto no caixão. Enquanto isso, Judas aproveita para violentar sua mulher dentro da capela, na fazenda JATI, de propriedade de ambos.
DINA - Filha de Sara e Adão, irmã de Jordão( Carrero adora nomes bíblicos). Depois de casada com Judas, assume a identidade do seu amado assassinado, Abel, criando inclusive um clima de incesto.
Resumo: A inveja e o fratricídio permeiam esta versão da história de Caim e Abel. Judas é obscurecido pela sombra do irmão , Abel, o "bom", que não o deixará em paz nem depois de morto, já que reaparece na figura de Dina travestida. Merece destaque a fúria exposta pelo narrador quando descreve a morte do carneiro que Abel ganhara do padrinho e que Judas, morrendo de inveja, esfaqueia e queima o bicho.
Há algo de mórbido em Raimundo Carrero. Algo de "casmurro" em vários de seus personagens. Quase não há diálogo, o discurso indireto apossa-se da trama conduzindo a juízos sobre :
DEUS - (página ll4) "...era um ser incrível cercado de solidão- a solidão dos abandonados da sorte, dos miseráveis que estendem latas vazias pelas ruas, das mulheres que, enlouquecidas andam sujas pelas estradas. A solidão do esquecimento completo e absoluto".
AMOR - " O amor é a inveja do outro: ama-se para roubar do outro a parte que lhe falta" (P- 56) .
CONCLUSÃO: No final, como numa imensa alegoria, um bando de cães famintos invadem a casa de Dina e Judas, ela os afasta. A seguir, vem a metamorfose definitiva de Dina em Abel, de quem ela assume os trajes, o corte de cabelo e ...a identidade. Judas tranca-se no quarto e Dina (Abel?) encara a luz do sol.
2.A DUPLA FACE DO BARALHO
Esta novela de Carrero é ambientada em Santo Antônio do Salgueiro (Salgueiro, cidade pernambucana onde nasceu) , onde o Comissário Felix Gurgel vive e narra , de forma sombria, a sua existência: "Estou aqui sentado na cadeira de balanço em frente à minha casa nesta cidade Santo Antônio do Salgueiro, esperando a morte chegar".
Regenerar-se, refazer a vida (como Paulo Honório, de "São Bernardo", ou Bentinho de "Dom Casmurro", com quem Gurgel mantém semelhanças), são as metas do narrador que de CARCEREIRO PASSOU A COMISSÁRIO : "Quem entrar aqui e disser que não apanhou, volta e apanha". Sentia-se alegre em ser da polícia e decidir a liberdade dos outros. Humilha jovens idealistas, inclusive um que no futuro seria prefeito e teria Gurgel como subalterno.
Casos curiosos permeiam esta narrativa: Gurgel recebe um homem que traz a esposa amarrada pelo pescoço e pede "um atestado" , pois sabe que a mulher o traiu. Gurgel prende-a, e na hora de espancá-la, torna-se...seu amante! Convive com um enteado, Camilo, a quem trata como filho. Em seu sadismo, mata barbaramente os pássaros do rapaz(símbolos da vida e harmonia plena).
De esquerdista a cigano, Carrero usa uma linguagem simples. Seu mundo é de violência, de individualismo. Seus personagens trazem algo de muito selvagem em suas relações sado-masoquistas.
Esta novela foi escrita na época do fim da URSS e da queda do Muro de Berlim. Carrero, em sonhos, previu a própria morte.
3.O SENHOR DOS SONHOS (Romance de 1986)
"o caminho da vida pode ser o da liberdade, porém nos extraviamos."
O velho Domingos de Oliveira Olímpio, protagonista, misto de melancólico e irônico, humilde sorridente, amante da vida e dos animais, nunca reclamava de nada. Em Salgueiro, onde morava, luta contra a miséria e a injustiça, sacrifica-se pelos oprimidos. Por causa de um porco que ia ser morto, apanha de um sujeito forte: " Como é possível estar indiferente diante da dilaceração e da tortura?" . Alegoria sobre a maldade dos homens que têm o poder de fazer o que querem, enquanto os miseráveis são como " restos humanos que se amontoam em ossos, sangue, músculos e nervos, insistindo em viver."
Na eleição para prefeito, Venâncio, irmão mais novo do então prefeito Anselmo Cruz, representa a continuidade, e a oposição é feita pelo cego Tomé da farmácia. Anselmo não cuida bem dos velhos, enquanto Domingos , desafiando o poder, luta para construir um abrigo para velhos. É perseguido, tem a casa destruída, procura advogado, mas contra o Poder nada consegue. É acusado de instigar uma revolução e de ser comunista:" (...) o réu está construindo uma casa em desrespeito às leis municipais para provocar antipatia e reunir adeptos para a luta contra o poder constituído e contra a polícia" (P-79). Preso, após muita tortura , é solto , volta para sua casa destruída.
O cego Tomé aproveitou a confusão e vence as eleições, mudando seu discurso popular.
Domingos percebe que o cego Tomé era a continuação dos governos anteriores e decide continuar a peleja: "(...)fechou os olhos, entre os destroços, e confessou a si mesmo que a luta ia recomeçar."


SOBRE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO: 
O escritor, professor e pesquisador recifense Moisés Neto tem formação em Letras, pós-graduado em Literatura Brasileira, Mestre e Doutor em Teoria da Literatura pela UFPE. Ele estreou no teatro como ator profissional dirigido por José Francisco Filho e Buarque de Aquino e com o diretor /autor João Falcão e como dramaturgo (também como diretor) com a peça Um Certo Delmiro Gouveia, vencedora do prêmio de melhor texto literário num concurso promovido pelo Governo de Pernambuco.  Sua peça Cleópatra também recebeu um prêmio do Governo do Estado de Pernambuco. Além do teatro, Moisés publicou seu 1º poema no Jornal do Commercio nos anos 80 (Lobos) e foi colaborador regular do Suplemento literário deste jornal nos anos 90, publicando seus artigos em outros jornais e revistas como o Le Monde Diplomatique e na revista belga Parati. Lançou seu primeiro romance intitulado A Incrível Noite (edições Ilusionistas) e Chico Science: A Rapsódia Afrociberdélica (primeiro livro sobre o movimento mangue, lançado em outubro de 2000 que analisa aspectos da cultura pernambucana). Moisés é autor de alguns diálogos para filmes como Cassino Americano (do diretor Marco Hanois) que recebeu menção honrosa no festival internacional de vídeo da JVC em Tóquio. É autor de Notícias Americanas, poema épico (livro) sobre o 11 de setembro e a devastação do Afeganistão, lançado em 2002, pela Editora Edificantes, de Teatro Ilusionista, Chico Science, Zeroquatro & Faces do Subúrbio e Passagem - contos e poemas. Além de colaborar com vários jornais e revistas o Brasil e da Europa os ensaios de Moisés analisando diversos aspectos culturais estão publicados em várias antologias.
Como ator ele participou, dentre outras peças, de: Muito pelo Contrário (texto e direção João falcão), Suplício de Frei caneca (de Cláudio Aguiar, com direção de José Francisco Filho), Hamlet (no papel-título- direção do argentino Alberto Gieco e de Paulo Falcão), Romeu e Julieta, Viva o Cordão Encarnado (direção Luís Mendonça), A Noite dos Assassinos (do cubano Jose Triana, com direção de Augusta Ferraz). Na TV atuou em A Cartomante e no cinema em O Cangaceiro (direção Aníbal Massaini).
Também assina a autoria do espetáculo Para um Amor no Recife, que dirigido por Carlos Bartolomeu em 1999, recebeu 4 prêmios da associação de produtores teatrais em Pernambuco, é co-autor dos musicais A Ilha do Tesouro (2002) e Sonho de Primavera (que dirigiu ao lado de Ulisses Dornelas (que teve estreia em 2004 e ficou sete anos em cartaz), premiados pela APACEPE. Adaptou para o projeto escola parte da obra de Machado de Assis. Em 2006 foi assistente de direção do filme Incenso baseado em poemas de Ascenso Ferreira, vencedor do concurso Ary Severo/ Firmo Neto (Prefeitura Cidade do Recife/ Governo do Estado de Pernambuco). Vencedor do Prêmio Klaus Vianna, concedido pela FUNARTE, pelo roteiro e direção do espetáculo Recife- Paralelo 8, montado pela Companhia DANTE em 2007. É autor do texto da peça Anjos de Fogo e Gelo, a vida atormentada de Arthur Rimbaud, que dirigido por José Francisco Filho teve grande repercussão em Recife no ano de 2008, recebendo prêmios da APACEPE. Participou em 2009 da Curadoria da exposição permanente da Faculdade de Direito do Recife (UFPE) sobre Ruy Barbosa e Castro Alves. 2010 foi o ano do lançamento de Anticânone, literatura em Pernambuco a partir do século XX, e em dezembro do mesmo ano mais um texto de Moisés foi levado à cena, o musical O Circo do Futuro, com direção de Carlos Bartolomeu, um sucesso que já dura uma ano num grande teatro do Recife. Em 2011, lançou o livro Pequena História da Literatura Brasileira.
Atualmente ensina em algumas escolas e faculdades em Pernambuco. O site www.moisesneto.com.br  é bem visitado e contém artigos e peças escritas por Moisés e exibe a trajetória do seu grupo,a Ilusionistas Corporação Artística- que com vinte e cinco anos de atividades tem no seu currículo, além de produções teatrais e publicação de livros, a promoção de oficinas, cursos, exposições(como o Universo de Antunes Filho, trazendo duas vezes ao Recife este diretor de teatro internacionalmente reconhecido. Neste evento Moisés proferiu a palestra “O poética de Nelson Rodrigues em A falecida na montagem 2009 de Antunes Filho” à convite do curador paulista Sebastião Milaré). O mesmo Antunes Filho convidou-o em setembro de 2012 para fazer a apresentação da sua encenação de Toda Nudez será Castigada, pelo CPT/ Sesc SP. Também em 2012, ele lançou seu livro POEMAS DE MOISÉS NETO PUBLICADOS EM JORNAL, no salão nobre do Teatro de Santa Isabel, Recife, com participação da atriz Sônia Bierbard interpretando alguns dos poemas da edição, em 9 de dezembro de 2012. Sua tese de doutorado foi escolhida, publicada pelo SESC e lançada em 2015 (Abismos da poeticidade em Jomard Muniz de Britto; voltou a tuar inte3rpretando o personagem Kafka, em A ÚLTIMA NOITE DE KAFKA, apresentada em Recife e no Rio de Janeiro. Interpretou o personagem Pilatos, na Paixão de Cristo, apresentada nos Montes Guararapes (PE). Atualmente Moisés é professor na Faculdade de Marketing do Recife (FAMA), atuando também em outras instituições de ensino. Em 2016 teve suas peças radiofônicas O JULGAMENTO DE PADRE CÍCERO e também UM CERTO DELMIRO GOUVEIA, transmitidas pela RÁDIO FOLHA DE PERNAMBUCO; dirigiu a peça O bem que multiplica (encenada no Teatro da Caixa Cultural, Recife; dentre outras atividades.

Trecho de “Romeu e Julieta

No casamento de Romeu e Julieta:


Moisés Neto, Carlos Varela, Conceição Camarotti, Júlia Lemos, em ROMEU E JULIETA (Recife,1988)


FREI LOURENÇO
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Sua lâmina não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
Trecho de “Romeu e Julieta – De Almas Sinceras a União Sincera Nada Há que Impeça”, que o Núcleo Experimental de Teatro apresenta

sábado, 29 de outubro de 2016

Bruxas da Escócia barbarizam no Recife!


por Moisés Monteiro de Melo Neto

A professora e pesquisadora Telma Virgínia, Moisés Neto e parte da trupe Cia Vagalum Tum Tum



Gosta de uma história contada de uma maneira engraçada, com músicas em clima de opereta e até mesmo truques de mágica? Pois olha só: assistimos, ontem, no Teatro da Caixa Cultural, que já foi palco para alguns espetáculos que escrevi e dirigi (lá tem uma equipe muito boa) a um dos espetáculos infantis mais encantadores dos últimos anos, Bruxas da Escócia (no elenco os atores, Christiane Galvan (que também assina os figurinos), Anderson Spada, Erickson Almeida, Layla Ruiz, Tereza Gontijo e Val Pires, que executam ao vivo as músicas da peça, compostas pelo diretor musical Fernando Escrich); trata-se de uma adorável recriação de Macbeth, de Shakespeare, com a charmosa trupe de clows Cia Vagalum Tum Tum, com a magistral direção do tarimbado Angelo Brandini . Ver uma peça shakespeariana como esta sendo adaptada para, digamos assim crianças (que podem levar os adultos para curtir esse barato total) é um prazer que tem a possibilidade de se transformar em êxtase.  



Telma Virgínia, Moisés Neto e Enne Marx




 Falar bem da Cia Vagalum Tum Tum parece ser como chover no molhado, mas tive esta vontade. Recife pode apreciar, com a produção local da sensacional Enne Marx, a um espetáculo divino. Isso é muito legal. Levem todos! Chamem todos. Uau! todos os espetáculos premiados pela crítica especializada da cidade de São Paulo.Eles já ganharam muitos prêmios, como o  Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem 2014 (antigo Prêmio Femsa): Melhor Espetáculo Infantil, Melhor Direção e Melhor atriz Coadjuvante (Christiane Galvan). Ganhou ainda o Prêmio APCA de Melhor Espetáculo com Texto adaptado e foi finalista do Prêmio Governador do Estado na Categoria Arte para Crianças.


Eu já tive o privilégio de assistir a versão deles do Hamlet (“O Príncipe da Dinamarca”), no SESC SANTO AMARO (Teatro Marco Camarotti) e fiquei perplexo (lembrar que eu, Moisés Neto, já fui o protagonista de uma montagem desta peça, que também adaptei, tanto na versão para adultos quanto para crianças)


Essa maneira do palhaço de contar a história é hilária: as batalhas, por exemplo, são repletas de bofetadas, escorregões, e outras gags absurdas, enquanto  as mortes, tão terríveis em Macbeth, aparecem (cruzes!) de uma maneira, digamos assim, “leve, divertida e criativa”, como eles mesmos afirmam, isso tornou possível mantê-las no espetáculo (em vez do sangue a Lady Macbeth tem graxa nas mãos (daí um trocadilho patético: “você é uma graxinha!”); quanto às execuções por armas brancas a sacação foi colocar os personagens catapultados “para o espaço infinito”, numa encenação que não esquece de levar para crianças e reflexões sobre o (maldito?) “Poder”, nesta era temerosa na qual estamos todos inseridos de um modo ou de outro.
APLAUSOS! Eles merecem. Bis! Bravo!


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Recife, Boa Viagem: o Edifício Madrid, em art déco

Recife que vai se acabando: em Boa Viagem o Edifício  Madrid,  em art déco, frequentei-o por sete anos, de 2004 a 2011. Lá morava o meu amigo João Augusto Lira. Lindo lugar!


CURIOSIDADES DO ENEM (risos e sisos). Uma questão peculiar e dúbia:



Máscara senufo, Mati. Madeira e fibra vegetal. Acervo do MAE/USP

As formas plásticas nas produções africanas conduziram artistas modernos do início do século XX, como Pablo Picasso, a algumas proposições artísticas denominadas vanguardas. A máscara remete à:
a) preservação da proporção.
b) idealização do movimento.
c) estruturação assimétrica.
d) sintetização das formas.

e) valorização estética.

ANA LUCIA SANTANA COMENTA LITERATURA PARA ENEM




Na prova amarela deste ano as duas primeiras questões se referem a um poema de Carlos Drummond de Andrade, A Dança e a Alma. São essencialmente sobre interpretação de texto e aqui aproveito para dar a primeira dica. Aqueles que gostam e têm o hábito de ler certamente terão em mãos maiores recursos para analisar não só passagens de obras da literatura brasileira, mas também o que é exigido em cada pergunta.

Portanto o estudante deve se concentrar em cada enunciado antes de avaliar as alternativas e entre elas escolher a resposta que considera correta. Se ele não conseguir compreender o que está sendo requisitado em uma dada questão, ficará difícil encontrar a solução ideal.
Aqui, por exemplo, ele precisa ler com muita atenção o poema e tentar extrair dele a melhor compreensão possível. É uma poesia simples, de um autor que integra a segunda geração modernista. Se for preciso, o aluno deverá ler várias vezes, tentando anotar em um rascunho o que compreendeu de cada estrofe. E só depois ele passará para as perguntas, extraindo delas o que é realmente solicitado.
É interessante perceber que as avaliações se valem de trechos literários para questionar o estudante sobre outras disciplinas, como a questão 8, na qual uma passagem do argentino Jorge Luis Borges é utilizada pela matéria de geografia. Deve-se demonstrar, aqui, não só um conhecimento geográfico, mas também e principalmente a capacidade de interpretação do texto. É sem dúvida uma pergunta inteligente e ardilosa.
Uma questão criativa é a que enfoca Cândido Portinari – perguntas 21 e 22 -, pois relaciona pinturas do artista com um poema de sua autoria; devem-se encontrar aquelas que retratam a mesma temática da sua poesia, Retirantes. A outra proposta, a 22, já se enquadra dentro da Biologia.
A pergunta 56 é brilhante; enfoca um tema muito atual, ou seja, o futuro da humanidade, através de uma tirinha famosa, da Mafalda, e da letra de uma canção de Chico Buarque, Sonho Impossível. Mais uma vez tudo depende da interpretação de ambos.
Na questão 58 a prova aborda dois poemas célebres, Auto-Retrato, de Manuel Bandeira, e Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade. Mesmo que não se conheça o estilo destes poetas, basta analisar os textos e a resposta virá naturalmente.
Finalmente, na questão 63, pede-se que o aluno compare uma ilustração de Portinari com o texto deMachado de AssisMemórias Póstumas de Brás Cubas. Um bom poder de observação também contribui aqui para a interpretação não só da parte verbal, mas também da imagética.


Análise da prova de 2006 (Prova Amarela)



A primeira questão dessa prova é bem direta e objetiva. É necessário ter um domínio das características da escola modernista. Ela se baseia em um poema de Manuel Bandeira, Namorados.
A segunda é bem original, pois apresenta uma correlação entre duas figuras e um ditado popular; é preciso muita atenção. Pessoalmente não concordo com a resposta da terceira questão, fundamentada em uma poesia de Oswald de Andrade. Para mim ela é nitidamente modernista, portanto a resposta correta seria a alternativa C, a poesia Pau-Brasil. Os avaliadores, porém, consideraram certa a opção D, o simbolismo pré-modernista.
A questão 4 não exige conhecimentos literários, basta a análise do texto de Cornélio Pires, Conversas ao pé do fogo, mas exige uma leitura bem minuciosa dessa passagem e principalmente das alternativas. Já as perguntas 5 e 6 partem do poema Aula de Português, de Carlos Drummond de Andrade.
Na questão 5 o estudante encontra um enunciado um pouco mais complexo, que se refere à função emotiva da linguagem; mas a resposta é simples; basta estar bem atento e ler o enunciado mais de uma vez e com calma. A sexta pergunta segue no mesmo caminho, porém a proposição é menos intrincada.
Mais uma vez o Modernismo está presente na sétima questão, e novamente em sua segunda etapa, com Carlos Drummond de Andrade, no poema Procura da Poesia. Exige conhecimento das características literárias deste movimento, mas também dá para perceber, pelo trecho em questão, qual o tema modernista nele presente.
Na pergunta 8 o aluno se depara com uma passagem do clássico Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Basta aqui uma boa análise de texto para responder corretamente a questão. É preciso saber distinguir entre linguagem formal e os traços de regionalismo e informalidade. Tendo esse discernimento, o estudante logo encontrará a alternativa correta.
Por incrível que pareça, há apenas 8 questões de literatura nesta prova, todas de pouca complexidade. Bem diferente da prova anterior, na qual grande parte dos enunciados, mesmo os de outras disciplinas, se baseavam em textos literários. Nesta apenas uma questão de biologia está alicerçada em um poema de Carlos Drummond de Andrade, A Montanha Pulverizada.

Análise da Prova de 2007 (Prova Amarela)

A primeira questão dessa prova não é exatamente sobre literatura, mas também está ligada a este campo, pois se refere a uma modalidade cultural, no caso um patrimônio histórico imaterial. É necessário ler bem o enunciado, pois todas as alternativas apresentam um patrimônio histórico, mas só um deles é imaterial, palavra-chave da avaliação.
A segunda questão também exige uma atenção extrema, pois aqui o aluno precisa se concentrar muito no enunciado e nas imagens, procurando encontrar em cada uma delas as características das pinturas de Anita Malfatti, as quais são descritas nesse texto.
As questões 3 e 4 são mais complexas; elas exigem uma leitura muito atenta do enunciado e das afirmações propostas. É basicamente interpretação de texto. Mesmo que o aluno não domine muito bem os elementos presentes no romance social de 1930, se souber analisar as passagens reproduzidas nesta prova, terá uma boa probabilidade de acerto.
A pergunta 19, embora esteja inseria na prova de história, vale-se de um texto literário, Marco Zero II, de Oswald de Andrade, e do quadro Os Imigrantes, de Antonio Rocco, para questionar o estudante sobre a imigração européia para o Brasil. Ela demanda conhecimento histórico, mas também interpretação de texto e análise de uma obra de arte.
A questão 20 também se vale de uma passagem que pode ser considerada literária, pois é uma carta de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade sobre a candidatura de Getúlio Vargas e suas alianças políticas. Ela passa igualmente pela análise cuidadosa do texto.
Note-se que nesta prova as perguntas estão novamente misturadas. Ela iniciou com literatura, passou para outras disciplinas e retornou às questões literárias a partir da indagação número 26. Um trecho de Carlos Drummond de Andrade, extraído do livro Poesia Completa e Prosa, serve de base para uma pergunta sobre gramática. É interessante a comparação dessa passagem com uma versão mais atual da mesma.
As questões 27 e 28 partem de dois textos comparativos, um poema de Gonçalves Dias, O Canto do Guerreiro, e o epílogo de Macunaíma, de Mário de Andrade. A primeira aborda as diferentes visões – romântica e modernista – da realidade do nativo brasileiro. A segunda se refere à linguagem de ambos.
Mais uma vez se reproduz o padrão da última avaliação: há cada vez menos questões de literatura. E aqui estão mais espalhadas ao longo da prova. O grau de dificuldade é médio, não exige muito conhecimento literário, pois foca mais na análise de texto.

Análise da Prova de 2008 (Prova Amarela)

As questões 12 e 13 abordam o Arcadismo. Finalmente uma prova do Enem decide enfocar outras escolas literárias e exige do aluno um domínio deste movimento, não só análise de texto. Ela se baseia em uma poesia de Cláudio Manuel da Costa, A Poesia dos Inconfidentes. A primeira pede uma relação entre o poema e o contexto da época. A segunda se restringe mais à compreensão textual.
A pergunta 14 é bem criativa. Ela se fundamenta em uma tira do personagem Hagar, o Horrível e aborda a informalidade lingüística de um trecho do diálogo entre o protagonista e sua esposa. Com exceção de uma passagem do livro Para Gostar de Ler, de Rubem Braga, a partir da qual se avalia o conhecimento histórico do aluno, não há mais nenhuma questão literária.
Há duas questões, a 37 e a 38, que examinam a capacidade simbólica do aluno, com enunciados que enfocam signos visuais e a pintura Entrudo, de Jean-Baptiste Debret. Nada mais, no decorrer da prova, se aproxima da esfera literária. É estranho e inaceitável que a literatura perca tanto espaço nesses testes.

Análise da Prova de 2009 (Caderno Azul)

Este ano marca uma mudança nas provas do Enem. Até então as avaliações eram organizadas com base em um bloco de 21 competências; cada uma delas era testada por meio de três perguntas. As questões objetivas eram computadas em 63 unidades interdisciplinares dispostas ao longo de apenas um caderno.
De 2009 em diante o exame é dividido em dois cadernos, um por dia, com 90 questões cada. As perguntas objetivas passam a ser estruturadas em quatro blocos, representando as esferas do saber, avaliadas em 45 questões por área. A prova de literatura agora é inclusa na matriz Linguagem, Códigos e suas Tecnologias.
A questão 98 confirma a tendência de se utilizar letras de música nas avaliações literárias ao invés de textos da própria literatura. A base é a canção Para o Mano Caetano, de Lobão. Mais uma vez não são exigidos conhecimentos neste campo, e sim uma avaliação do texto e de sua linguagem.
Na pergunta 99 o aluno deve estar mais preparado para avaliar características do Simbolismo em um poema de Cruz e Sousa, Cárcere das Almas, mas as alternativas não apresentam ambiguidades. Portanto, com um pouco de atenção e a leitura atenta do poema, é fácil encontrar a resposta correta.
Já o passo seguinte é de novo ler cuidadosamente mais um dos inúmeros quadrinhos que povoam as provas do Enem. Esta tirinha, extraída da obra Quadrinho quadrado, de C. Xavier, é ponto de partida para as questões 100 e 101. A primeira é bem inteligente e divertida, mas não se refere à literatura em si, e sim ao processo de produção de um livro. A segunda serve de pretexto para verificar o conhecimento linguístico do estudante, perdendo a oportunidade de extrair outro conhecimento literário ou, pelo menos, de análise de texto. Isso é muito comum nas provas do Enem. Esta questão foi cancelada.
A pergunta 102, por sua vez, remete à definição de ‘dramaturgia’, segundo texto de A. Coutinho. Exige apenas uma leitura atenciosa, muita concentração e uma análise mais profunda das alternativas para encontrar os elementos que constituem um espetáculo teatral.
A temática literária retorna nas questões 111 e 112. A primeira se resume, na verdade, à preservação da produção cultural de uma nação, neste caso, a canção Cuitelinho, peça do folclore brasileiro recolhida por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó. A segunda é uma analogia entre a pintura Índio Tapuia, de A. Eckhout e uma passagem da Carta de Pero Vaz de Caminha. Ela demanda apenas a observação cuidadosa das duas obras e das opções.
As perguntas 116 e 117 se baseiam no poema Canção do Vento e da minha Vida, de Manuel Bandeira. Enquanto uma questiona sobre a função de linguagem, tópico muito requerido no Enem, a outra avalia noções gramaticais. Muito pouco conteúdo literário é explorado nas provas do Enem, o que é uma pena, só empobrece o conhecimento sobre esta disciplina.
Bem diferente é a questão 120, que exige realmente do aluno um saber mais profundo sobre o romance regionalista. Para quem não tem esse domínio concreto, as alternativas podem confundir e induzir ao erro. A pergunta 123 enfoca o texto Se os Tubarões fossem homens, de Brecht, exige interpretação de texto e análise do enunciado para que se compreenda o que é requerido. É uma questão de pouca complexidade desde que o aluno seja competente na compreensão textual.
A de número 124 utiliza de forma inteligente fragmentos de uma poesia de Hilda Hilst, Cantares, para trabalhar o paradoxismo. É original a inserção dessas passagens nas alternativas, para que o aluno reconheça onde a autora está se valendo dessa figura de linguagem.
Na questão 128 a avaliação parte de um trecho do texto A Partida, de Osman Lins. Ela se filia à linhagem de indagações sobre a capacidade do estudante de ler uma obra e ao final ter condições de analisá-la. É o que muitos blogueiros e leitores realizam em seus blogs ou em outros canais de expressão dispostos hoje no mundo virtual.
No enunciado 130 a autora L. Stegagno-Picchio, em História da Literatura Brasileira, traduz o processo de construção da identidade cultural e literária do Brasil diante da identidade europeia, exigindo uma leitura muito cuidadosa do texto e da proposição da prova.
As perguntas 132 e 133 abordam uma passagem do texto Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, e um trecho de uma análise da obra deste autor por R. Comodoro. A primeira foca no livro de Nassar, exigindo uma avaliação do tema abordado e de sua concepção narrativa. Atém-se ao texto em questão, não exigindo outros conhecimentos, embora eles sempre ajudem na interpretação. A segunda enlaça a compreensão dos dois textos ao avaliar o tom do discurso narrativo.
A última questão, finalmente, demanda certo conhecimento das características da obra de Drummond e também do movimento modernista brasileiro. Nesta prova se multiplicaram as questões sobre literatura, mas ainda prevalecem as análises de texto.

Análise da prova de 2010 (Caderno Azul, 2ª Aplicação)

Das 44 questões que integram a matriz Linguagens e Códigos e suas Tecnologias, 17 enunciados estão relacionados à Literatura. Desses, cinco não avaliam qualquer conhecimento literário, resumindo-se apenas ao processo de análise de texto. A pergunta 101, por exemplo, parte de um quadrinho de C. Xavier e avalia o uso oral e escrito da língua.
Como as questões de Literatura estão dispersas ao longo desse bloco, minha percepção do conteúdo desta disciplina é meramente subjetiva. Eu poderia, naturalmente, considerar esta pergunta como temática linguística, mas preferi incluir na esfera literária, pois as histórias em quadrinho se enquadram também neste campo.
A pergunta 120 aborda uma analogia criativa e interessante entre uma canção de Chico Buarque e um artigo jornalístico; os dois enfocam a Escola de Samba a Estação Primeira de Mangueira, retratando sua glória e seu brilho. A intenção é contrapor a linguagem poética ao texto informativo.
Oito questões testam os conhecimentos literários do aluno, mas sempre com a análise atenta dos textos e uma leitura atenciosa dos enunciados e das alternativas. Três proposições avaliam o domínio da literatura contemporânea a partir de textos de Hilda Hilst, Chacal e Helena Parente Cunha.
movimento surrealista é representado na avaliação pelo autor Murilo Mendes; o quadro O Mamoeiro, de Tarsila do Amaral, mais uma vez traz uma apreciação do Modernismo; o neoconcretistaFerreira Gullar também está presente nesse exame; e apenas uma questão envolve escolas literárias de séculos passados, neste caso, o Romantismo, simbolizado pelo poeta Casimiro de Abreu. A oitava pergunta se refere ao gênero jornalístico.
A pergunta 115 é muito criativa e, embora foque uma autora quase desconhecida, Helena Parente Cunha, não exige do aluno um conhecimento mais profundo de sua obra. A intenção é extrair de uma passagem do livro As Doze Cores do Vermelho uma reflexão sobre o universo feminino.
Outra questão interessante é a número 100, que faz uma analogia entre o trecho de um poema de Hilda Hilst, Cantares, e uma estrofe de Camões, extraída do célebre soneto Transforma-se o amador na cousa amada. O objetivo, aqui, é captar o que há de comum entre ambos no que tange ao tema.
Muito bem escolhido o poema de Gullar, Açúcar, na questão 134. A partir dele o aluno deve meditar sobre as desigualdades sociais e encontrar entre as alternativas aquela que melhor descreve o objetivo do eu lírico nesta poesia, qual seja, tornar explícita a exploração dos trabalhadores.
Há três tiras de histórias de quadrinhos na prova. Uma delas, a 101, já foi comentada acima. A outra é protagonizada por Hagar, o Horrível, e exige apenas interpretação de texto, enfocando discurso formal e informal. A 110 segue no mesmo caminho, baseando-se em uma divertida e irônica tira dos personagens Calvin e Haroldo.
Duas proposições partem de textos literários para avaliar elementos gramaticais. A primeira se baseia em um texto informativo sobre o livro infantil da autora Flávia Maria, ilustrado por Millôr, e enfoca a norma padrão da língua portuguesa. A segunda parte de um texto da escritora Rachel de Queiroz sobre a cidade de São Paulo e verifica os conhecimentos do aluno sobre fonologia.
Como alguns comentaristas do Enem, eu também sinto falta, nestas avaliações, de questões que realmente exijam do estudante o domínio do conhecimento literário. Se a tendência sobre a pura análise do texto persistir, o aluno não sentirá a necessidade de se dedicar ao aprendizado desta disciplina.
Por um lado é positivo que a interpretação textual seja enfatizada, pois somente aqueles que têm o hábito de ler se saem bem em exames como estes; mas resta a despreocupação com a transmissão da história da literatura. Pois mesmo nas poucas perguntas sobre este campo, raras remetem a escolas e movimentos de séculos passados. Destacam-se as proposições sobre o Modernismo e a Literatura Contemporânea.

Análise da Prova de 2011 (Caderno Rosa)

Nesta avaliação encontrei onze questões ligadas ao campo literário. Em comparação com a de 2010, houve, portanto, uma redução deste espaço, com seis perguntas a menos. Há um empate entre as que exigem um maior conhecimento literário e aquelas que demandam apenas a análise textual, cinco cada.
Não há nenhuma história em quadrinhos desta vez, a não ser uma que aqui não considerei por ser somente ponto de partida para uma verificação gramatical, até no próprio conteúdo. Mas as canções, desta vez, ocupam uma boa porcentagem do exame, totalizando três proposições. Por outro lado, há somente duas questões literárias na apreciação do conhecimento linguístico, e há uma ausência total de testes gramaticais fundamentados em passagens de obras da literatura.
O tema da memória é enfocado através da poesia ‘Guardar’, de Antônio Cícero, poeta carioca, na questão 116. A banca examinadora, porém, cometeu aqui um equívoco, pois conferiu a criação deste poema à poetisa Gilka Machado. A alternativa apontada pelo gabarito do Inep, no qual me baseio, apontou como alternativa correta a C, enquanto o bom senso e a equipe de educação da Revista ‘Veja’ apontam como certa a opção E.
Na verdade, a resposta que consta no gabarito nada tem a ver com o poema, pois se refere à promoção da subjetividade e dos valores humanos. E realmente a estrutura poética é destacada no poema como uma maneira mais elevada de preservar a memória, como indica a resposta E. Até onde sei ela não foi anulada.
Uma questão criativa, a número 100, oferece ao aluno a oportunidade de conhecer um autor comoGuimarães Rosa por meio de uma passagem de seu clássico Grande Sertão: Veredas. O autor representa a segunda fase do Modernismo e neste trecho de sua obra-prima o personagem-narrador, Riobaldo, expõe a crua condição do sertanejo, ao mesmo tempo homem livre e submisso aos poderosos fazendeiros.
Ela exige interpretação tanto do texto quanto do enunciado e das alternativas apresentadas, mas também requer certo conhecimento do autor, das características de sua obra e da escola literária à qual ele se filia. De qualquer forma, a leitura atenta de todos os ângulos dessa proposta de avaliação acrescenta à bagagem dos estudantes um maior conhecimento desse período.
A pergunta 118 finalmente aborda a poética de Gilka Machado, considerada uma das maiores poetas brasileiras. Embora sua obra seja povoada por elementos simbolistas, a passagem abordada incorpora características modernistas. A partir dessa constatação os avaliadores requerem do aluno que encontre entre as alternativas expostas a atitude da poeta que se enquadra realmente na forma e no conteúdo do Modernismo.
Duas canções de Noel Rosa, Onde Está a Honestidade? e Não Tem Tradução,  abordadas nos enunciados 98 e 106, envolvem também análise de texto. Esta segunda, além disso, também fundamenta uma avaliação da função linguística conhecida como metalinguagem. Tem-se aqui um exemplo do caráter multidisciplinar dessa prova, englobando simultaneamente várias esferas do conhecimento.
Na pergunta 121 o aluno é avaliado mais uma vez no quesito das funções de linguagem por meio de uma música de Geraldo Vandré, Pequeno Concerto que Virou Canção. Com base na reprodução de um trecho da letra, o estudante é testado em seu conhecimento sobre funções da linguagem, particularmente na poética e na emotiva ou expressiva.
A questão 103 revela mais uma vez a inclinação dos examinadores a centrar a atenção nas propostas de análise e interpretação de texto, desconsiderando, assim, os conhecimentos mais profundos de literatura. Aqui o enunciado parte de um poema famoso de João Cabral de Melo Neto, Vida e Morte Severina.
O tema enfocado, o da identidade dos retirantes, é ressaltado por sua analogia com uma análise crítica sobre a obra do poeta. É uma questão inteligente, original, mas pode ser resolvida somente com uma leitura atenta dos textos, do enunciado e das alternativas exibidas.
A pergunta 99 demonstra que o Enem está bem sintonizado com as questões contemporâneas ao abordar o tema da controversa probabilidade da extinção do livro impresso. A prova apresenta um texto genial sobre o assunto, extraído da versão virtual do Jornal da Paraíba. O saboroso texto é de autoria do colunista e escritor Bráulio Tavares.

Análise da Prova de 2012 (Caderno Rosa)

Esta prova conta com dezesseis questões literárias ou ligadas a esta esfera. Predominam nesta avaliação as interpretações de texto; oito enunciados giram em torno desta atividade. Uma delas, muito interessante, parte do trecho de um artigo da revista História Viva; considerei uma indagação sobre literatura por enfocar dados biográficos de José de Alencar, extraídos da biografia composta por Lira Neto, O Inimigo do Rei, e por se referir à digitalização de parte de sua obra inédita.
Particularmente achei muito atual e inteligente a questão 106, baseada em uma passagem de A aventura do livro: do leitor ao navegador, do sociólogo Roger Chartier. O texto é um retrato perfeito das redes sociais e de seu papel universalista, um antigo sonho dos iluministas e de filósofos como Kant, e nos remete imediatamente à função que está cumprindo nas sublevações do mundo pós-moderno. Requer uma leitura atenta do fragmento apresentado e do enunciado.
Outra pergunta original e crítica é a de número 109, fundamentada em um pequeno poema de Luís Fernando Veríssimo, O Sedutor Médio. Nele os valores do mundo no qual vivemos são ironizados e questionados. Embora seja simples, é necessário que o aluno observe bem as alternativas expostas.
Segue nesse mesmo caminho a questão 121, que parte de um excerto da obra Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. O narrador-protagonista se pergunta até onde valeu a pena cultivar o ideal de uma pátria configurada por elementos míticos, como o povo afável, pacífico; a terra fértil e a pureza da língua. Também demanda muita atenção na leitura do texto, do enunciado e das alternativas.
Só uma observação sobre a proposta da pergunta 116, baseada em um poema de Cecília Meireles, ou seja, em uma passagem do Romanceiro da Inconfidência. É um trecho complexo e as alternativas podem realmente induzir o aluno ao erro. A resposta considerada correta não me pareceu definir exatamente a interação entre o homem e a linguagem nos versos apresentados.
Há apenas um quadrinho, na questão 119, uma tira do famoso personagem de Dik Browne, Hagar, o Horrível. Os examinadores se valem desta história em quadrinhos para avaliar conhecimentos da língua portuguesa. Neste caso, o significado da expressão ‘como se’ neste enredo.
Na prova há mais duas perguntas que partem de textos literários para verificar habilidades linguísticas. A de número 118 aborda a evolução do léxico em um texto de Carlos Drummond de Andrade, Antigamente, contraposto a um quadro intitulado Palavras do arco da velha. É bem pensada e de singela compreensão.
A indagação 128 parte de um enunciado de Rubem Alves, Mais Badulaques, e versa sobre a norma padrão, necessária em situações formais de comunicação escrita. O texto é divertido, inteligente e se encaixa perfeitamente na proposta dos examinadores, mas o aluno deve estar muito atento e avaliar cuidadosamente as alternativas.
Não há nenhuma letra de música que se enquadre direta ou indiretamente nas proposições de literatura. Quanto às questões essencialmente literárias, há apenas cinco nesta avaliação. Uma delas enfoca o Classicismo, na figura de Camões; duas se baseiam em poemas de Manoel de Barros; uma é extraída de um poema de Cacaso e outra de uma poesia de Mário de Andrade.
A proposição 114 inspira-se em um soneto de Camões, comparando-o a uma pintura da mesma época, A mulher com o unicórnio, de Rafael Sanzio. Ambos são os principais representantes do movimento classicista, o primeiro na literatura e o outro nas artes plásticas.
As duas obras foram produzidas, portanto, na era do Renascimento Cultural, vigente do século XIV ao XVI. Definitivamente aqui há mais chances do aluno escolher a opção correta se ele tiver um maior conhecimento do contexto e das características do Classicismo. Questões como essa estimulam o estudo e o aprendizado da literatura.
A opção por Manoel de Barros condiz com a tendência dos examinadores de escolher autores modernistas ou que, de alguma forma, assumem características dessa escola em suas obras. É o caso do poeta de Cuiabá, formalmente próximo à Antropofagia de Oswald de Andrade.
A questão 117 demanda do aluno um maior domínio da poética desse escritor, que radicaliza a proposta de Oswald em sua tese antropofágica,  inclusive na manipulação dos elementos da Natureza e no cultivo da insignificância das coisas, explorado de forma criativa nesta pergunta, baseada em passagem da obra Retrato do artista quando coisa. Outra característica desse poeta é a criação dos neologismos, a dimensão lúdica das palavras, explorada no enunciado número 120.
E Mário de Andrade está mais uma vez presente nesta prova, aqui representado pelo poema O Trovador, na indagação 132. Nesse enunciado é avaliado o conhecimento da obra desse autor e dos elementos modernistas, para uma melhor compreensão da questão da identidade nacional, uma constante nos escritos de Mário, nesta poesia específica.
No geral é uma prova equilibrada, criativa. Mas é preocupante a redução do espaço reservado a questões essencialmente literárias, especialmente as focadas em escolas menos familiares aos estudantes, as quais devem ser igualmente resgatadas das brumas do tempo, lado a lado com os autores modernos e contemporâneos.

Coisas do Brasil

Um dia desses: eu fiquei emocionado com esta jabuticabeira


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Jota Ferreira, ícone da comunicação em Recife


Estive ontem com Jota Ferreira, em um programa na RÁDIO FOLHA, falávamos sobre Delmiro Gouveia.



Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto) e Jota Ferreira



O programa Jota Ferreira Agora é um projeto que visa defender e mostrar os problemas das comunidades do Estado de Pernambuco. Com muita prestação de serviço e reportagens, o programa expõe a veracidade dos fatos e cobra a solução para os problemas relatados através de denuncias. Além disso, o programa é bastante interativo e Jota Ferreira com sua experiência e credibilidade, não mede palavras quando o assunto é "direito do povo". 
O programa vai ao ar de segunda a sexta, às 13h40.




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Aborto, imigrantes, eleições americanas, a polícia do senado brasileiro na LAVA JATO, a derrubada do campo dos refugiados na França...

O horror, sim, o horror, como diria Joseph Conrad, O coração das trevas espalha sua luz escura sobre o nosso mundinho dominado pelas bestaferas mais inusitadas de todos os tempos: aborto ainda é polêmico na Europa (acho que se papai e mamãe já lhe odeiam antes de você nascer, suas chances diminuem, mas eles lhe matarem sem você poder se defender , isso é sacanagem), imigrantes vão ser julgados, com a derrubada do campo dos refugiados na França...eleições americanas: Trump Pence é apontado como o canalha-mor: e aí? Já em Pindorama, mais sujeira no esgoto que alimenta a fonte mais linda do país: em Brasília a polícia do senado brasileiro é acusada de varreduras ilegais...
Ah! Enquanto isso Bob Dylan continua sem se pronunciar sobre o prêmio que receberá em dezembro (melhor autor de LITERATURA)

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Risos e sisos para a canalhada oportunista

sábado, 22 de outubro de 2016

4 POEMAS de MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO







MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO 




TEUS OLHOS

São uns olhos muito negros
Olhos de escuridão
Fazem-me prisioneiro
Esses olhos que me atraem
Minhas forças esvaem
Possuído sigo calmo
As sombras caem
Como negras azeitonas
Numa branca porcelana
Em mesa cheia de morte
Roletas russas da sorte
A loucura de quem ama
e...ai! não tê-los
mesmo com a fome que tenho
não poder comê-los...







LOBOS

No espaço entre os seus dentes
restos de almoço
vários lobos foram espalhados
quero te contar como foi:
eles foram soltos com a boca cheia de fome
todos os lobos, eles comeram meus olhos
Eu os vi chegar
dancei e cantei junto do fogo
vi febre nos olhos deles
nos olhos calmos que tinham.
E sabia deles, pois os pressenti sem direção
todos os lobos, eles comeram os meus olhos
atravessaram apressados os campos que
rodeavam minha casa
comeram meus frutos verdes
minhas flores na varanda
sonhos da juventude...
todos os lobos, eles comeram meus olhos




TARÂNTULA

em qualquer canto da casa existe uma tarântula...
com suas patas curvas, peludas e débeis
trêmulas de emoção e veneno
em qualquer canto o murmúrio dos ventos
quando se encontram num portal
atrás de um quadro
espargindo-se nos vidros...
em qualquer canto, há um Pégaso
que voa despreocupado em seu galope,
distraído /
na neblina do sonho de alguém
em qualquer canto da parede vê-se um pouco de alegria
que restou da última festa /
estilhaços repousam também,
n’algum lugar pelo chão...





ODE AO LIVRO

Luar solidificado, fogo congelado, dor que murmuro
Barcos em estranhos mares de vinho escuro
Que me fazem Deus no quarto e me crucificam na sala
Maravilhas e perigo: loucura breve
Com água de serpente ou com sangue se escreve
A teia de homens, truques da alma em animal e flor
Sonho da vida de sonho-monstro feito de olhos e dor
melodia que não posso traduzir
Que me leva de volta às fontes e ao porvir
Velho-moço aprendendo e errando
Corvo e pomba branca casando
Senti-lo sem lê-lo, tateá-lo penetrando-o
Buquê jogado no espaço, vento despetalando-o
Fantasma atravessando meu último recôndito
Cascavel celestial que me deixa atônito
Papel, tinta, luz na minha memória
Vários dias e noites numa só história
Que faz os vencedores se curvarem
Paraísos de leite e mel, secarem
Pavão perder suas cores, desnudando-se até a essência
Necessário pecado, nossa arrependida convivência
Tentativa e erro, retorno à pátria e desterro
Que me faz sombra e candeeiro
Sonho em claro labirinto-frio ou quente
Espelho temeroso, livre metáfora, inverdade
Alusão às inatingíveis estrelas no fim da tarde
Inrrompível cadeia (criação/ imitação)
On line ou na minha mão...