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sábado, 30 de julho de 2016

O espectro de William Shakespeare, 400 anos depois


artigo de  Moisés Monteiro de Melo Neto*
publicado no jornal Ribalta, do SATED PE
junho de 2016


Romeu e Julieta é a obra literária mais famosa do mundo





Tenho dez anos, acabei de cruzar a ponte de ferro (feita com trilhos de trem?) que liga a rua da Imperatriz à rua Nova, Recife. É uma tarde chuvosa e eu venho do dentista, como recompensa me levaram à minha sorveteria favorita: Confiança (que também era uma fábrica de biscoitos, na rua da Imperatriz); ao dobrar à direita em direção à Praça Joaquim Nabuco, onde tomaríamos o ônibus para Boa Viagem, onde eu morava, paramos numa banca de revista; enquanto a pessoa que estava comigo escolhia uma revista eu fixei meu olhar sobre um livro com capa verde limão, havia seis letras douradas que me chamaram a atenção. Abri-o. Li a palavra ESPECTRO, perguntei o que significava e me disseram: fantasma. Pedi o livro e a pessoa que estava comigo comprou para mim. Começou assim o meu envolvimento com Shakespeare. A peça era HAMLET, que eu interpretaria durante dois anos, algum tempo depois, dirigido por Paulo Falcão e pelo argentino Alberto Gieco. Tragédia maior, em vários sentidos. Sonho de uma noite de verão foi outra peça que acompanhei uma montagem luxuosa bem de perto; dirigida por Antônio Cadengue, tendo Susana Costa como Titânia, Buarque de Aquino como Oberon e Augusta Ferraz como Puck (na época fazíamos parte do grupo Ilusionistas). Também interpretei Mercúcio, personagem de Romeu e Julieta (numa adaptação de Rubem Rocha Filho, dirigida por José Francisco Filho). Aos quinze anos ganhei a obra completa de Shakespeare, presente de um primo mais velho, da nossa família, os Belli. Com prazer devorei peça por peça. Depois desta maratona eu nunca mais fui o mesmo. Faz 400 anos que William Shakespeare morreu, mas continua a perseguir com carinho todos os atores, diretores e muitos autores. 


O bardo inglês, nosso Shakespeare



Shakespeare, nascido na bucólica Strattford-upon-Avon, em 1564, antes de expressar-se através da criação literária, foi ator (um crítico o chamou de “corvo arrogante”, ao tratar de uma interpretação sua no palco; lembro aqui do conselho de Hamlet aos atores: “que a discrição te sirva de guia; acomoda o gesto à palavra e a palavra ao gesto, tendo sempre em mira não ultrapassar a modéstia da natureza, porque o exagero é contrário aos propósitos da representação, cuja finalidade sempre foi, e continuará sendo, como que apresentar o espelho à natureza, mostrar à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma”)  e a seguir  o mais influente dramaturgo do mundo, cujas  38 peças são exemplo quase ímpar da capacidade humana na escrita. Seu pai, John Shakespeare, afirma-se que era um comerciante chegou a prefeito da sua cidade natal. Sua mãe, Mary Arden, vem de uma família de proprietários de terras. Teve sete irmãos. Criou-se católico, mas só em um soneto ou dois ele ousa defender, ou pelo menos citar, os companheiro sufocados pela rigidez da Igreja Anglicana. Casou-se com Anne Hathaway e geraram: Susanna e dois filhos gêmeos, um chamava-se Hamnet (quase Hamlet, teve má sorte, morreu aos 11, longe do pai que estava em Londres). Parece, especulações novamente, que o jovem artista, fugiu com uma trupe de teatro (muitos deles visitavam a cidade de Shakespeare); Quando em 1592, fecharam os teatros, por causa da peste, ele se dedicou  aos poemas líricos Vênus e Adônis e O Rapto de Lucrécia. Logo depois construiu o Globe Theatre, sucesso por 15 anos, mas em 1613, na peça Henrique VIII, pegou fogo e virou cinzas; foi reconstruído, mas depois foi demolido em 1644. 


HAMLET
Cacilda Becker, a maior atriz de teatro no Brasil, até hoje, um mito, e outro ícone da cena nacional: Sérgio Cardoso, no papel-título (Cacilda estava substituindo a atriz Bárbara Heliodora, futura estudiosa de Shakespeare)



Em 1997, o projeto do americano Sam Wanamaker, que morreu em 1993, de reconstrução dessa famosa casa de espetáculos, perto do lugar onde ficava o primeiro Globe, trouxe de volta um pouco do antigo fascínio deste Teatro. Além de ator e escritor, ele foi sócio da Lord Chamberlain´s Men (ou King´s Men, o que já dá o tom da sua gratidão aos nobres que o apoiavam, não é?). Sobre sua vida sabemos tão pouco, embora haja uma enxurrada de livros sobre sua produção e até a lenda sobre a autoria de parte dos seus textos. Suas comédias, dramas históricos, tragédias (Macbeth, Rei Lear, Otelo) são jóias de valor incalculável. Da sua forte herança latina brotaram as tragicomédias ou romances. 



Montagem de RICARDO III, pelo grupo Clowns de Shakespeare, que assisti no Parque Dona Lindu, Recife


Esse escritor conheceu a glória em vida, mas acho que nem no sonho mais louco imaginou até aonde iriam as projeções da sua sombra e da sua luz. O Mercador de Veneza, A Comédia dos Erros, Os dois fidalgos de Verona, Muito barulho por nada, Noite de reis, Medida por medida, Conto do Inverno, Cimbelino, Megera Domada, A Tempestade, Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Julio César, Antônio e Cleópatra, Coriolano, Timon de Atenas, Henrique IV, Ricardo III, Henrique V e outras peças como Henrique VIII, fascinam com sua genialidade enigmática sublime.










Até hoje suas peças são montadas, filmadas, coreografadas, viraram óperas, tudo com assombroso destaque



 400 anos depois do desaparecimento físico do misterioso bardo inglês, que tratou tão apropriadamente temas tão fortes, com um colorido (forma e conteúdo) tão cheio de som, riso, siso e fúria da alma humana, ainda dá muito o que falar. Uma vez, em Londres, eu parei diante da estátua dele no Museu de cera de Madame Tussaud e me perguntei: qual seria a figura exata de Shakespeare? Há tantas representações diferentes dele. Voltei no tempo, ao dia em que ganhei aquele Hamlet, e o li numa noite cheia de chuva, relâmpagos, trovões, ventos uivantes, próximo ao mar de Boa Viagem.


*O recifense Moisés Neto é doutor em Letras, escritor, pesquisador e professor

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Por uma poesia de poetas novos! (moisesneto)



O que é uma ação poética? É o que esses caras estão fazendo aqui.
Falam de temas e fatos (externos ou emocionais)? Talvez. Mas, exploraram significados e contradições possíveis e atuantes observando elementos que confiram a suas  realidades e, claro,  existência(s);
 O vocabulário deles (da área, não o de cada autor), parte para a sintaxe de manipulação (do vocabulário)  numa pragmática que parte do vocabulário até o (pré) texto;
Parecem incentivar o leitor a praticar tal  processo;
Alguns desses   poemas são  autocentrados, mas submetem-se também  à realidade social, sem perder a  subjetividade lírica...
Dão vez  também ao quaseautobiográfico, mesmo beiram o anárquico, afinal desejo e memória são, em poesia, um viés de  experimentalismo que envolve o caráter público-político, tal autocentramento (um, digamos assim: auto-espelhamento?)  expõe  o objeto poético à verdade (pós-kantianamente falando: o que  é o Real? Translacanianamente o que é o simbólico e enfim: o imaginário?) do grupo e, claro do sujeito poético (kkkkkkkkkk);
Sim! Eles também trazem à baila a fragmentação do discurso, o fluxo de consciência, a intertextualidade intensa!
São pessoas do o cotidiano, na veia da autoironia, do existencial, do social, do jogo e (oh!) do...político!
Aqui temos obras (im)puras que tripudiam fragmentação e deglutição;
Que justapõem imagens em enunciação meio caótica, louvando e destruindo a rebeldia  através  da intervenção na problemática do cotidiano, do ser e estar no mundo.
Surgem esses novos poetas assim: querendo mais vida, corpo, cultura em sentido bem mais amplo, louvando e destruindo, simultaneamente, a (nova?) indústria cultural!
Querem refletir o jogo do século XXI, seu atrito, tensão (não apenas na linguagem poética, mas na pegada , ao tratar dos nossos corpos, sexos, jeito de comer, beber, transar tudo e falar, sempre!
Guerrilha, de novo! Pela gozo do CIBERDESEJO, já!
Sim à linguagem fragmentada das cibernéticas passeatas/ cruzadas, com suas POSTAGENS -relâmpago, enfrentemos com versos (também) a CIBERRETÓRICA descentralizadora;
Que bom que novos poetas publiquem a revolução do conhecimento, a dissolução regenerativa de qualquer possível consciência política!
Que se lancem ainda com mais forças numa revolução lírica e antilírica (em versos!), e estilhacem a própria gênese de todos os fenômenos; retrabalhem signos, metáforas, símbolos; (re) anunciem o poeta como imperador e escravo colonial, no CIBERCOLISEU, espaço poético virtual em que a vida possa se cumprir SATILIRICAMENTE;
Tela-praça, portátil/fixa, doa em quem doer (é bom que seja no outro, não em você!);
Luta e fúria: viver é guerra! Vamos publicar poesia: UAU!
Viva os poetas esgrimistas! Touché!
Que venham esses textos com suas INTERSECCIONADAS  coexistências, isto é: o CRUZAMENTO: tempo VERSUS  poesia: presença versus eterna ausência antifreudiana materna da pátria ou do ser que pariu o poeta e/ou o leitor.
Urgência no COLAR de tantos escritores em coletânea  INESPERADAMENTE NUA e parindo unidade!
Que o corte recupere sua autonomia: Poesia–cirurgia!
Pela  invencionice destabocando o papai e mamãe pós-marxista!
Contra o tratamento da elegância e delicadeza,  sim à exploração da eterna e trágica solidão do homulher luciferinos, pré-edênicos nesta vida tão cheia de... palavras, olhares de cobiça!
Pelo desnudamento total da verdade, pois a mentira triunfou até agora de qualquer modo através da linguagem áspera dos tribunais populares e eruditos!
Se você disser que é mentira será mentira sua...
Malvados, tremei!  Aí estão as nossas armas e armações: Mais poetas no front!



 Moisés Monteiro de Melo Neto



terça-feira, 26 de julho de 2016

Roma, o poema

“ROMA”
por moisesmonteirodemeloneto (Moisés Neto)



Anagrama do amor hoje
ontem
Itália colossal
minha própria vida
No fórum
No Coliseu
Eu mesmo devorado
Deuses e estátuas, imperadores, basílicas
Mercados dos meus amores
Dores etílicas
Uma praça tão triste nessa hora
Sou sacrificado entre muros caídos
Paredes das termas de Caracala
Atravesso as portas monumentais
Carrego pela Via Ápia sentimentos momentâneos
Tremulam mediterrâneos pinheiros
Catacumbas
Esplendores barrocos
Abraço de Bernini
Aperto universal de pedra e cacos
Igrejas, templos, esmagadora arte
Colo de Pietá
Sansão amarrado nos baldaquins
Pareço o Vaticano
Sou o menor país do mundo
Roma que me tenta
No claustro me acho cristão arcaico
Perdido entre naves
Pórticos
Panteões
Guetos  hebraicos
Gerânios, colunas, calçadas prosaicas
Vida inteira jogada fora
Sigo rápido margeando a fonte das tartarugas
Busco beijo à luz de velas
Vinho, massas, molhos, desculpas amarelas
Que chegam com a  noite para este viajante cansado,
Continuo através dos dias
Espantado
Hóspede
Palácios mal assombrados

La dolce vita na Fontana de Trevi
Doce vida!
Dá-me logo a espumante abundância!
Mesmo que seja por um instante breve
Compara-me ao efeito ágil desses cavalos
Rochas, desses deuses
Desse teatro danado
Desta fachada artificial
Nesta pequena praça
Eu, amolador de facas
Jogo moeda, ágeis cavalos, esguicham, escorrem,
Já nem sei, neste labirinto de ruas, para quem...
Ó água incessante
Vento do crepúsculo
Como acabará esta noite?

Ando até a praça de Espanha, carícias
Bem sei, virá depois o açoite
Escadaria grandiosa
Vou descendo lentamente, sozinho
Azaleias, café & burburinho
Curvas & reentrâncias
Festa ininterrupta!
Transeuntes & becos escuros
Estrelas, gritos italianos

Cadê meus avós?
Perderam-se nos subúrbio dos anos
Em parque sombrio que já nem sei mais
Tanta música na memória
Súbita alegria, de mármore, aliás
Metafísica
Metamórfico reencontro

moisesmonteirodemeloneto (Moisés Neto), em Roma




OS 45 ANOS DO ROMANCE A PEDRA DO REINO, de Ariano Suassuna

O Romance d´A pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e- Volta : Todos os estilos  num só...

por Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto)*


Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto)na Pedra do Reino em São José do Belmonte (PE)




A comédia da antiguidade, o teatro religioso, a arte popular do Nordeste e seus folguedos são as salutares influências deste mestre das letras que é o paraibano Ariano Suassuna, Ex-aluno do Colégio Americano Batista do Recife (dos 10 aos 15 anos, uma fase de sua vida que sempre recorda com saudade), professor de Filosofia, foi secretário de cultura do governo Arraes (e agora do governo Eduardo Campos) . É autor de três romances: "Fernando e Isaura" (sobre um amor impossível, inspirado na história de Tristão e Isolda) , "Romance d´A pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai- e- Volta" (Ed. José Olympio. RJ. 1970), exibe como herói um poeta que na década de 30 sonha em escrever um épico nordestino e acaba preso como comunista e "História d´O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: Ao sol da onça Caetana", suas lembranças de infância e do pai, mescladas num sertão mítico.


A bailarina Bete Marinho, Moises Monteiro de Melo Neto e o ator Lee Taylor, que interpretou Quaderna na versão teatral dirigida por Antunes Filho




"Não faço distinção entre a cultura popular e a erudita. A cultura brasileira, a cultura popular brasileira, não está ameaçada . Ela é resistente. Estão tentando matá-la, mas não conseguirão" , diz Ariano e nos convida ao deleite com pérolas do cancioneiro ibérico, a arquitetura africana, as cores da África, textos de José de Alencar, de Aluízio Azevedo. E é no Romanceiro popular que Ariano mais se inspira. Nas novelas de cavalaria, nos amores incríveis, nos heróis picarescos (zombeteiros) que permeiam as histórias que o povo conhece. Ele chega a usar um mesmo texto várias vezes como base para sua recriação. "A novela da Renascença é picaresca. O personagem principal é a Fome".Emigra para o Brasil o herói pícaro ibérico, o astucioso que difere do opressor que é o lado ruim . Ao comentar o Brasil antes de Cabral, Ariano reafirma nossa cultura milenar : "Existia teatro indígena antes da chegada dos jesuítas . É absurdo centralizar a origem do teatro. O teatro japonês não nasceu na Grécia. Tem outra origem. O teatro indígena é um teatro de máscaras e excelentes figurinos e enredos fascinantes que envolvem sua religiosidade. Eu queria que um cineasta brasileiro fizesse com este tipo de teatro brasileiro o que o cineasta japonês Kurosawa fez com o antigo teatro japonês, o teatro Nô e com o Kabuki . Injustiça social não é base para a arte popular. Ela também não é primitiva. Os violeiros vêem televisão, os artistas populares transformam as informações universais em linguagem com temática local. Temos que fortalecer nossa cultura". Para isso, Ariano usa seus conhecimentos de Filosofia, História e Literatura, trabalhando o belo de forma dialética, unindo-o ao cômico misturando o espírito intelectual com a esperança no homem, fundindo nossa herança barroca com um espírito neoclássico.
 Análise do "Romance d´A Pedra do Reino" (1970) : Ariano recheia seu livro "Romance d´ A Pedra do Reino" com humor malicioso e exibe sua perícia na selva das palavras. Mistura nobres e pobres num processo criativo ímpar. Os colonizadores do Brasil aparecem como bravos que tiveram coragem de matar para estabelecer novos rumos. Ariano traz para a narrativa suas experiências com o teatro e a poesia, brinca com a metalinguagem, expõe os "mistérios" da criação. O tema central do romance são as artimanhas de Quaderna e a trágica história dos seus antepassados na cidade de São José do Belmonte, interior de Pernambuco. Ariano, através da narração em primeira pessoa (Quaderna), descreve paisagens e situações alucinantes, reinventa a cronologia, adapta fatos históricos à sua ficção (a magia das grandes navegações, as cruzadas, os romances de cavalaria, as revoluções. Se Alencar foi exuberante mas não ousou exibir um herói picaresco, Ariano, com seu Regionalismo natural, busca as interseções entre o popular e o erudito, misturando a poética aristotélica com Romantismo e buscando o êxtase criativo num realismo que alguns intelectuais rotulam de mágico, fantástico. O encatatório, o mítico, o exótico vão delineando o espaço criativo que traça o painel do sonho de uma monarquia de esquerda , sonho que Ariano alimentou durante algum tempo. Obcecado em criar uma epopeia nordestina, o narrador torna- se cômico e o recurso Deus ex machina (sobrenatural) surge para resolver as inquietações da alma que perturbam a raça humana. Outro mito recorrente é o sebastianismo.


Lee Taylor, que interpretou Quaderna na versão teatral dirigida por Antunes Filho



Podemos até arriscar em julgar o discurso de Ariano como um discurso maniqueísta que recusa a polifonia. Mestre na arte literária, ele criou um herói bufão numa espécie de circo fantasioso e hedonista em busca de um sentido , de dignidade, num emaranhado de "causos" alinhados por uma escrita competente que se utiliza do pictórico (xilogravuras) para reforçar seu discurso que, no fundo, transforma o interior de Pernambuco numa espécie de Camelot da caatinga, onde humor e malícia unem-se ao ingênuo, à lenda do cavaleiro que enfrenta as instituições (representadas no texto pelo Corregedor) e o imaginário supera o racional na reinvenção do passado histórico, através da alquimia verbal típica de Suassuna que rompe a linearidade, enxertando a todo instante várias tramas secundárias à narrativa central, numa colagem que redimensiona a obra em pequenos contos. O julgamento de Quaderna é a espinha dorsal do texto que vai buscar nos poetas populares (cordel e emboladores) suas referências. Depois de trair seus amigos covardes, Quaderna busca a imortalidade através da Literatura , quer ser fidalgo. Quer louvar sua estirpe. Tenta reiventar Homero, a sua Odisseia é através do Atlântico nordestino e sua Ilíada tem como palco o sertão, ali está a Onça Caetana (a morte, a vida , o amor, a nacionalidade). Seres fantásticos pululam ao lado de personagens estilizados numa narrativa explosiva recheada de situações absurdas.


O Corregedor, Margarida e Quaderna: três personagens icônicos do romance A Pedra do Reino, de Suassuna





O recifense Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto) é escritor, pesquisador, diretor e professor

segunda-feira, 25 de julho de 2016

V CONGRESSO INTERNACIONAL SESC/UFPE/UFRPE DE ARTE/EDUCAÇÃO

Marcelino Freire, Breno Fittipaldi, Moisés Monteiro de Melo Neto (moisesneto) Benedito Pereira
V CONGRESSO INTERNACIONAL SESC/UFPE/UFRPE DE ARTE/EDUCAÇÃO
JULHO, 2016


José Manoel Sobrinho foi o mediador 


V CONGRESSO INTERNACIONAL DE ARTE / EDUCAÇÃO SESC UFPE Recife 2016; palestra moisesmonteirodemeloneto; foto Gustavo Túlio


V Congresso Internacional de Arte Educação, SESC UFPE, 2016 pedro gilberto, , flavia tebaldi,  breno fittipaldi, moisesmonteirodemeloneto, rudimar constâncio



moisesmonteirodemeloneto (moisés neto) e Ana Mae Barbosa, homenageada no V CONGRESSO INTERNACIONAL DE ARTE / EDUCAÇÃO SESC UFPE Recife 2016; foto: Breno Fittiplaldi


Tema: Vida Artista: Diálogos entre Arte/Educação e Filosofia
Homenagem a Ana Mae Barbosa - 80 anos de Vida Artista | 60 anos de Magistério

V congresso sesc arteeducacao

domingo, 24 de julho de 2016

IMPECÁVEL? Luiz me decepcionou no teatro

por moisemonteirodemeloneto


Luiz não estava num bom dia, mas é sim, um grande ator




Futilidade excessiva ao alcance de todos.
Fui ao Teatro Guararapes ontem assistir a um ator com sotaque e humor tipo Rio de Janeiro. A peça? IMPECÁVEL. Sobre o Impecável beauty: trata-se de um salão de beleza teatral, fui lá, buscar talvez algo que deixei no final dos anos 70, quando assisti à peça TRATE-ME LEÃO, do Asdrubal trouxe o trombone, grupo que mudou minha concepção de teatro,ou quando vi ENGRAÇADINHA, filme que assisti em Santos (e deixei de lado o show Trem Azul, último de Elis Regina, já tinha visto dois dela no Recife e achava que aquele viria também, ela morreu logo a seguir). Então, neste sábado, fui apreciar o trabalho do ator Luiz Fernando, astro que admiro pela fleuma com que expressa seu humor politicamente incorreto e atrevido. A peça O impecável pretende falar sobre os sete pecados capitais (retrô?). Luiz Fernando Guimarães interpreta oito personagens “diferentes, com texto de Charles Moeller e Cláudio Botelho e traz personagens como um a ex-miss chamada Eleonora, dona do tal salão, o recepcionista preguiçoso, o evangélico, a manicure, o cabeleireiro convencido (egresso do SENAC!). Detalhe: quase não há adereço extra para cada um desses tipos   e o ator muda apenas a postura do corpo numa cenografia simples, cheia de porta (ah! Não quero comparar com o entra e sai das farsas, nem fala de Irma VAP); os autores Charles e Cláudio, acostumados a criar/ adaptar musicais arriscam-se  num texto-pretexto que é  O impecável, uma dramaturgia fraca, pronunciada com uma dicção vacilante (perdi várias tiradas (não só eu, mas várias pessoas falaram isso. Luiz fala como se estivesse conversando com alguém que não precisasse entender tudo que ele diz.  Marcus Alvisi, o diretor, parece tê-lo deixado bem à vontade. O processo de criação parece legal: “trabalho de mesa, editar o texto, fazer leituras públicas para  testar nível de aceitação etc.”O entra e sai de personagens torna-se enfadonho. O ritmo de voz, gestos, trejeitos, o ritmo, tudo calcado num texto bobinho. Luiz , em entrevista, disse que  Andy Warhol (artista que aprecio muito, ainda hoje e faz parte da minha formação) achava o salão de beleza um portal do inferno; isso se assemelha a ver esta peça, que parece mesmo  não estar completamente pronta, diz também que o espetáculo não é humorístico porque “não tem comédia o tempo todo”.  A peça foi feita para ser apresentadas em lugares menores e não num Teatro como o Guararapes, daí decidiram colocar dois telões, que falharam, também o microfone não era dos melhores. Chega, volto para ver Luiz em coisa mais consistente. Gosto muito dele, ainda.

sábado, 23 de julho de 2016

AMOR, poema

por moisesneto


texto de moisesmonteirodemeloneto



Na verdade
Não há “fatos”
Só histórias, sobre Amor
Amor não se acaba
Vira Ódio
Seu oposto é a Indiferença
Amor se paga ou apaga
Não adianta
Retórica moralizante
Contra esse invejado Poder
Não se foge
De sua intermitente obsessão
Seu labirinto
Não se desnuda seu Dom
De parecer
Pessimista, quando em dúvida
Maligno, na inútil vingança
Rancoroso, escravo do passado
No fel que verte, às vezes
sugando a flor
Amor Sol:
Esfera
Luz
Raio
Chama
Amor Choro:
Fio
Chuva
Prata
Amor tanto faz:
Nuvem denegrida
Vento
Tempestade
Amor Metamorfose:
Iluminador
Amor Amora:
(importado)
Consome-se
na ânsia da vida pela vida
no equilíbrio natural 
na comunhão 
é tão bom dizer
EU TE AMO...
melhor ainda é agir assim
sem palavras

quinta-feira, 21 de julho de 2016

para ANA MAE BARBOSA

  

 
Agora é seu ágora
Nos 8 que são 80
Amorosidades sempre
 
Multiplicidade unificante
Anunciando arte por e para todos(as)
Entre regiões, países, paraísos perdidos
                                    mas reencontráveis.
 
Beleza compartilhando-se
Antes do hoje e do amanhecer
Redesenhando o mundo em
Bossas novas perdurantes
O que seja eterno entre filhos, famílias em
Sabedoria sutil e sagaz com
Artisticidade universalmente vivida.
 
Recife, julho de 2016
Jomard Muniz de Britto

quarta-feira, 20 de julho de 2016

CASTRO ALVES, hoje, por Moisés Neto

CASTRO ALVES
poema de moisesmonteirodemeloneto

dedicado ao escritor Albemar Araújo


 



Tua harpa bronzeada
Traduz convulsiva natureza
Toca música que traduz ainda o tema Brasil
Semideus, poeta vidente
Coroado com as folhas do povo
Tua voz une-se a de todos nós
Cantaste como deve se cantar
Ó alma-oceano
Poesia dos trópicos
Pela pátria contra o preconceito
Pela República
Contra exploração do homem pelo homem
Ó puro, nobre, sublime!
Ó indisciplinado!
Falaste a língua que o povo entendia
Apoiaste tua mão no abismo
Sob o clarão mais vivo da alma humana
Leio agora com o coração
Tua obra que termina em reticências...
Como um órfão na amarga solidão
Da recessão do Brasil

No abraço amargo da Dama Negra, corrupção...

segunda-feira, 18 de julho de 2016

ALMODÓVAR, PEÇA SOBRE PAULO FREIRE E A ALICE DO PAÍS DA TRUPE DO BARULHO

por moisesmonteirodemeloneto



Em torno dele, Julieta se enrosca e procria, a partir de uma pegação num trem




Fim de semana sacudido: duas peças de teatro e um filme de Almodóvar (agora assina só assim) chamado JULIETA. Vamos logo a ele. Por que conhecer e aplaudir este diretor? Ele nos traz a vida  pulsante, latina como nós,  é exemplo de resistência e riso, novamente temos o tema  do relacionamento entre mãe e cria. E ele dá um banho ao exibir seus conhecimentos sobre o universo feminino através da professora de Literatura (!) Julieta e sua filha (que a abandonou) Antia (com roteiro, baseado na obra de Alice Munro, Prêmio Nobel de Literatura em 2013); criticaram a pegada “revisar a vida através de uma espécie de carta, disseram que Almodóvar vinha mal e estava pior imitando a si mesmo. Bobagem. É um filme delicioso, cheio de referências fundamentais para entender o pop espanhol. Assisti no Cinema do Museu, cheio de esnobes descolados (faltou energia elétrica duas vezes e fui obrigado a assistir a cena do retiro espiritual três vezes; ah, os Pirineus!). O diretor trabalha com audácia o que seria o assim chamado equilíbrio emocional, algo que hoje em dia parece balela. A sensualidade é abordada com aquele molho de abafar, cheio de cores e imagens da natureza e dos interiores (sim, há algo de Bergman por ali, algo de Woody Allen, mas acima de tudo algo que é só de Almodóvar).



Júnior e Daniel: ao mestre com carinho


Agora vamos ao teatro no Recife, hoje. Mas antes uma aula básica sobre o tema da peça: PAIDEIA na Grécia antiga (ver Platão, A República), trata da libertação através da virtude e... verdade, que fariam o homem gozar tão sonhada liberdade e ser (ah, que utopia?) dono do próprio destino (ainda acho que injustiça é uma coisa cósmica, quando disse isso na apresentação, sim os atores buscam uma interação, que não foi aprofundada, com a plateia, Daniel Barros, um dos atores, riu). A peça é sobre o educador Paulo Freire, perseguido pelos militares no golpe de 1964 (mas não faltaram textos como “volta, querida, ou “fora Temer!” numa analogia com a situação atual do nosso país).  Trabalhar na desconstrução de ídolos da mentira e da falsidade, tratar sobre o que é a ideologia, é delicado, sem afogar-se num mar de clichês. Há um pouco do teatro narrativo, entre o épico e o didático. 
O teatro Arraial Ariano Suassuna, rua da Aurora, Recife, estava mais ou menos com 80% da sua lotação, umas 60 e poucas pessoas, um público conquistado antes que ele saísse de casa. O método de Sócrates,  a maiêutica, baseia-se em perguntas e respostas (relação dialógica com os educandos). Paidéia é, portanto, um teatro que se propõe dialógico. Paulo Freire queria a educação como exercício da liberdade (ah, o oprimido!), unir conteúdo, método e finalidade da prática numa utopia, esperança renovável.

Daniel Barros e Júnior Aguiar trabalham o exílio de Freire por 16 anos pela América Latina, Europa e África e esbarram na tarefa de mostrar educação como “instrumento essencial na transformação da humanidade”, bom, bonito, mas, com cuidado de não ser castradora, não “reprovar”, nem exigir a simples “reprodução de que está estabelecido”. Falar é bom.O método Freire já recebeu várias críticas, seu autor é poético e enfrentar o  Serviço Nacional de Inteligência, como Paulo fez, não é fácil. Da saída dele do Brasil à volta do exílio, a tentativa de transformar a plateia em sala de aula, intercalar isso com trilha sonora e depoimentos como o de Miguel Arraes é tarefa que passa por terreno movediço e a plateia não teve muita voz, não.
Esse é o segundo espetáculo da chamada Trilogia Vermelha, chama´se pa(IDEIA) – pedagogia da libertação , encenada pelo Grão Comum. Vi a primeira, também; era sobre Glauber e citava meu objeto de estudo no Doutorado Jomard Muniz de Britto. Essas obras, segundo Júnior,  “reabrem novos “diálogos-dialéticos-críticos-criativos sobre as dimensões da nossa identidade contemporânea, reagrupando e relendo a importância de consciências locais, regionais, nacionais e internacionais”; pode parecer pretensioso, pode parecer ingênuo, mas é um exercício de cidadania que está faltando em nosso teatro. Parece que o próximo espetáculo é sobre Dom Helder Câmara. Vamos lá!

Agora vamos ao terceiro produto cultural consumido por mim nessa maratona de julho de 2016: trata-se de um espetáculo teatral de um grupo de atores que Aurino Xavier participa há 25 anos, trabalhando a comédia popular ; falo da Trupe do Barulho (babado!) . Depois de duas décadas e meia, a companhia continua em atividade, enfrentando muitas dificuldades, como falta de espaço na mídia (SIC) ; eles continuam no seu berço:  o Teatro Valdemar de Oliveira (para ir ao banheiro tive que subir dois andares e atravessar salas que amo, no interior daquele templo que já foi a casa de Diná. 

Allyce no País das Marabibas é espetáculo comemorativo de 25 anos da Trupe do Barulho. Crédito: Ricardo Fernandes/D.P./D.A. Press

Trupe do Barulho: Bodas de Prata


A segunda peça é: Allyce no País das Marabibas, a Trupe volta a se utilizar as histórias infantis para escrachar o que seria a vida dos homossexuais. Fillipe Enndrio, assina o texto e exigiu ser o protagonista, ele é muito simpático e trabalhou essa comédia cheia de  improvisos, e a plateia, como eu sentenciei nos anos 90, pronta para rir de si mesmo fui o primeiro a tratar da Trupe em termos acadêmicos, no Jornal do Commercio (foi aí que os conheci, pensei que não iam gostar do meu artigo: amaram!)  . “Este foi um texto que escrevi há tempos atrás e o grupo se interessou em montar no fim do ano passado. O final foi escrito coletivamente e os nomes dos personagens foram modificados. A Rainha de Copas se tornou a Rainha de Paus, o Chapeleiro Maluco vira o Cachaceiro Maluco e assim sucessivamente”.



O Cachaceiro Maluco, o C"u"elho e Allyce: auê no Valdemar



O autor afirma: “A Rainha de Copas se torna a Rainha de Paus e manda castrar todos os homens do reino e só Allyce, vinda direto do Alto José Bonifácio, pode pará-la, pois sabe de um segredo de Sua Majestade”. Aí ela vai ao tal País das Marabibas e “vive” as mais variadas aventuras. Além de Fillipe, o espetáculo conta mais seis atores: Aurino Xavier, Jô Ribeiro(Divina), o próprio diretor, Thiago Ambrieel (na Trupe desde 2012), Saulo Máximo, Carlos Mallcom e Ricardo Silva. 

 


Ulisses Dornelas, vive de Teatro no Recife, aqui ao lado de  Moisés Neto



É ou não  de resistência? São os únicos, atualmente no Recife, que fazem temporada que duram meses, o outro, na linha infantil, é Ulisses Dornelas. ELES NÃO USAM LEIS DE INCENTIVO À CULTURA E SÃO CONSIDERADOS À MARGEM do que se chama por aqui de “alta cultura”.
RISOS E SISOS.