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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Bashô, Matsuo, no Recife, já: Professor Moisés Monteiro de Melo Neto, resumindo a ópera

Professor Moisés e você, poesia... sempre
(risos e sisos)
Vamos lá?
Poesia vem do grego e significa ação (de fazer algo)
O poeta dá às palavras novos significados, metáforas..
Vejamos um HAICAI (ZEN)
No velho tanque
uma rã mergulha
dentro de si
(Bashô, Matsuo- Século XVII)
Observem a rigidez da forma:
1º verso: introduz a cena (espaço/ tempo)
2º verso: o elemento inesperado
3º verso: sintetiza os dois e fecha a cena

domingo, 20 de setembro de 2015

O Papa em Cuba, hoje

Papa Francisco está em Cuba e milhares de cubanos neste foram vê-lo e participar da missa na Praça da Revolução de Havana!
Era lá que governo comunista fazia seus comícios criticando a igreja e os EUA.
Francisco  aproximou Cuba dos Estados Unidos; agora  serão  quatro dias de visita ; está lá desde ontem e quer acompanhar o país nas suas “preocupações (leia-se:  atividades econômica)
Ele também falou sobre o governo da Colômbia, os guerrilheiros das FARC (marxistas!). É bom lembrar que o presidente colombiano, Juan Manuel Santos quer pacto com as tais Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (já morreram mais de 20.000 no conflito). Eis o  “sangue derramado”,  que o Papa quer estancar.



O Brasil vive uma crise de personalidade?

Processar o professor Michel Zaidan, da UFPE, não me parece uma boa solução para aplacar o mal que nos devora , já há 515 anos, com poucos intervalos de alívio.

Sentenciou o escritor judeu tcheco Franz Kafka, em "O Escudo da Cidade" (escrito originalmente em alemão):


Quando se começou a construir a Torre de Babel, tudo estava muito em ordem; e talvez a ordem fosse excessiva; pensava-se demais em indicadores de caminhos, intérpretes; alojamentos para trabalhadores e rotas de enlace, como se se dispusesse de séculos e outras tantas probalidades de trabalhar livremente. A opiniâo então reinante chegava até a estabelecer que toda lentidão para construir seria pouca; não era preciso exagerar muito esta opinião para retroceder ante a própria idéia de pôr as bases. 



Argumentava-se deste modo: em toda a empresa, o positivo é a idéia de construir uma torre que chege ao céu. Diante desta idéia o resto é acessório. Uma vez captado o pensamento em toda sua grandeza, não pode desaparecer já: enquanto existem os homens, perdurará o desejo intenso de terminar a construção da torre. Neste sentido não há o que temer pelo futuro, pois antes do mais, o saber da humanidade vai em aumento, a arte da construção fez progressos e fará ainda outros novos; um trabalho para o qual necessitamos uma ano, será realizado dentro de um século, talvez em apenas seis meses e, por acrescentamento, melhor e mais duradouramente. Por que esgotar-se, pois, desde já até o litime das forças? Isso teria sentido se se pudesse esperar que a torre fôsse construída num lapso de uma geração. Isto, contudo, de nenhum modo era dado acreditá-lo. Pois bem, poderia pensar-se que a próxima geração, com seus mais amplo saber, haveria de achar mau o trabalho da geração precedente e que teria de demolir o construído para tornar a começar. Pensamentos deste gênero paralisavam as forças, e a edificação da cidade operária deslocava a construção da torre. Cada grupo regional queria possuir o bairro mais formoso, pelo que sobrevieram quizílias que redundaram em sangrentos combates. Estas lutas eram incessantes; o que serviu de argumento aos chefes para que, por falta da necessária concentração, a torre fosse erguida muito lentamente, ou, melhor ainda, apenas ao fim de estipulada uma paz geral. Mas não se perdeu tempo tão somente em combates, pois durante as tréguas se embelezou a cidade, o que deu origem a novas invejas e novas lutas. Assim transcorreu o lapso da primeira geração, mas nenhuma das que seguiram foi diferente; apenas a destreza ia em aumento constante e, com ela, a sede de luta. A isso veio somar-se que a segunda ou terceira geração reconheceram a insensatez da construção da torre, mas os vínculos mútuos eram já demasiado fortes como para que se pudesse deixar a cidade. Tudo quanto está entroncado com a lenda e a conção que surgisse na cidade está cheio da nostagia para o anunciado dia no qual a cidade seria aniquilada por cinco breves golpes e sucessivamente descarregados sobre ela por um punho gigantesco. Por isso tem a cidade um punho no escudo. 


sábado, 19 de setembro de 2015

Peça sobre Franz Kafka tem estreia nacional no Recife, dia 24 de setembro

Dia 24 de setembro, às 19:30, no Teatro Hermilo Borba Filho, Recife, A última noite de Kafka, peça do renomado escritor cearense, que morou por  muitos anos no Recife e atualmente residindo no Rio de Janeiro,  Cláudio Aguiar, inédita nos palcos do Brasil, terá uma leitura dramatizada com direção do veterano José Francisco Filho,  professor da UFPE, com Moisés Monteiro de Melo Neto e Manoel Constantino, estes dois últimos com uma longa história de serviços prestados ao Teatro no Recife.
Kafka, autor de A Metamorfose, O Processo e O Castelo, dentre outros títulos, é um dos mais importantes autores da literatura ocidental. Sua ideia de sujeito fragmentado influenciou muitos autores. O texto de Cláudio Aguiar foi todo escrito em versos e contém referências à cultura judaica, à cidade de Praga e a um ser da mitologia, muito explorado pelos habitantes da cidade tcheca: o Golem.
O solitário filho de  Praga, de pai e mãe  judeus  (impossível não citar a figura opressora do pai  de Kafka: um comerciante próspero, que sempre media os valores pelo sucesso material de um sujeito).  . já o filho declarou-se admirador das ideias sombrias de Kierkegaard ; em meio ao clima gótico de Praga, cidade medieval . Nosso Fraz cursou, durante pouco tempo,  Direito na Universidade de lá, onde ficou amigo do cara que seria o seu biógrafo e herdeiro da sua obra, o senhor Max Brod, no tempo dos círculos literários e políticos , provando gosto por crítica e inconformismo. Ele se empregou numa companhia de seguros, como inspetor de acidentes de trabalho, mas queria mesmo era se dedicar à literatura em tempo integral em meio à conturbação que era sua vida. O autor de O processo e O castelo 1925 e1926,  que  Max Brod publicou, como herdeiro, após sua morte. Kafka utilizava-se de uma técnica que lembra o surrealismo, o fantástico; seu jogo de metáforas, com absurdo que se instala no seu texto (um pouco da sua própria vida)  ainda se torna mais intenso com  a chegada da  tuberculose, quando sua garganta vai se fechando e ele fica condenado a quase não comer ( 1917 a 24, ano da sua morte). Seu fim foi em sanatórios e balneários. Pediu, inutilmente, a Max que queimasse sua obra.  
Manoel e Moisés, em cena

Cláudio Aguiar nos traz um Kafka desolado a tatear o mistério e a agonia, mesclados a o balanço de uma visão literária, marcada pelo mergulho profundo sobre o mistério e o absurdo da condição humana; o que será exibido, nesta performance (A última noite de Kafka), é um retrato do autor no relacionamento com o seu duplo: homem e obra se confundem de modo atemporal e universal frente à lógica humana que vai pouco a pouco se esboroando no meio de um redemoinho caótico que o diretor José Francisco, com o cuidado que lhe é peculiar, enreda e desenreda, verso a verso, num jogo de luz e sombra, na tentativa de expressar o horror e êxtase, como, por exemplo, nas cenas em que Kafka usa como interlocutor, a mítica figura do Golem (mito do judaísmo, da Cabala, ser feito de matéria inanimada, por magia,   na língua dos judeus:"tolo").
Moisés Montewiro de Melo Neto e Manoel Constatinoatuaram juntos em várias produções, para adultos e crianças (como o musical A Vila dos Mil Encantos); ambos são professores, escritores e diretores de teatro. Eles já foram irmãos na peça do escritor cubano José Triana, A Noite dos Assassinos, dirigidos por Augusta Ferraz, e agora se dizem felizes por esta oportunidade de compartilharem um palco novamente. A primeira vez que dividiram a cena foi justamente num texto de Cláudio Aguiar, Suplício de Frei Caneca, nos anos 80, dirigido pelo mesmo José Francisco, que agora enfrenta o desafio de trazer Kafka ao nosso teatro numa noite tão especial.


A última noite de Kafka
 peça do renomado escritor cearense,  atualmente residindo no Rio de Janeiro,  Cláudio Aguiar
estará em cartaz na capital pernambucana

 
Haverá coquetel e o autor estará presente ao evento que também contará com o lançamento do exemplar contendo toda a obra teatral de Cláudio Aguiar. (os livros serão distribuídos gratuitamente). Figuras muito importantes da cultura brasileira virão ao Recife especialmente para este evento. Detalhes em outra matéria

1º Livro sobre a Poeticidade de Jomard Muniz de Britto (JMB)

O Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto,  AUTOR DO LIVRO FALA: "Conheci Jomard nos anos 80 e fiquei muito interessado pelo seu processo criativo. Assisti a alguns dos seus filmes, palestras, mas foi a sua literatura que mais me interessou. Através ndos anos li todos os seus livros e resolvi fazer minha pesquisa de Doutorado sobre eles (publicados de 1973 até 2012). São 7 livros mais um feito com mais dois autores. Jomard fez parte da equipe de Paulo Freire, exercitou o Tropicalismo e o cinema Super 8 e foi professor da UFPE e UFPB. Suas ideias são libertadoras e questionam o status quo.
Fico feliz que o SESC inclua o meu livro nas suas produções.
Meu texto fala sobre as diversas possibilidades de se fazefr leituras dos textos jomardianos.
Dividi a obra em três partes:
1) Anos 70 e 89
2) Anos 90
3) De 2001 em diante



Trata-se de uma pesquisa detalhada e que usa estudiosos como Roland Barthes para sustentar certas suposições.
São quase 400 páginas num mergulho na obra radical que discute sexo, política, pedagogia, filosofia, poesia e muito mais.
Foram quatro anos de pesquisa mais apurada. O livro contém depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Anco Márcio Tenório Vieira e outros intelectuais que fazem parte do círculo de JMB (Jomard Muniz de Britto)"


Moisés Monteiro de Melo Neto é o autor desta apurada pesquisa




Lucila Nogueira,
Escritora e professora da Graduação e Pós - Graduação em Letras da UFPE  fala sobre o LIVRO DE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO:

"Uma trajetória que segue adiante sem hesitar na multiplicação de veredas e ocultações. Um caminhar carregado de raízes que se desdobra, no entanto, em futuras figurações. Um descrever que não renuncia à intensidade experimental, uma filosofia que se oferece para além dos conceitos teóricos tradicionais. Uma poesia que se deseja ensaio, memória, atentado. Um autor que está sempre testando o seu limite e a sua inexistência dentro do banal.

 Durante três anos e meio Moisés Monteiro de Melo Neto dedicou-se ao estudo minucioso dos insights contidos na bibliografia do pernambucano Jomard Muniz de Britto, percorrendo desde os anos 70, até a entrada no século XXI e seus exercícios irreverentes que se tornaram sinônimo existencial da cultura do Recife. O período, considerado muito prazeroso pelo autor envolveu a leitura de grande acervo bibliográfico, quer teórico quer do poeta estudado: uma plataforma  criada especialmente para dar acesso à obra em análise.
Um trabalho sem dúvida difícil e desafiador, este de atravessar as camadas de significação,  percorrendo várias décadas de uma produção à qual se reúne a teoria presente em dois ensaios dos anos 60 e mais um livro posterior em co-autoria, com Jomard.  A verdade é que as vanguardas nacionais resultam celebradas de modo crítico e contextualizado em Do Escrevivendo aos Atentados Poéticos, tese de doutorado defendida por Moisés em 2011, na UFPE, PPG Letras, sob nossa orientação formal que apenas saiu acompanhando as imagens sucessivas de um caleidoscópio intelectual que representava um entendimento fulgurante, por parte de Moisés, desse grande comunicador e intelectual que plasmou o percurso de várias gerações.
JMB e Moisés ocupam este espaço de diálogo e integração das artes interdisciplinares contemporâneas, cada qual trazendo a intensidade de uma experiência colada na pele como tatuagem que perdura e se multiplica a cada nova experiência intelectual no coração da linguagem. E não poderia ser diferente, um trabalho que surgiu de modo disciplinado e esfuziante trazendo tantas informações que a simples tese não conseguiria comportar tudo aquilo que o orientando dominava e estava sempre relacionando em conexões ontológicas e comparativas. Por certo, lhe era de utilidade tanto a sua experiência nas artes cênicas, como no ofício de professor, além de uma sintonia especial desenvolvida com relação à importância da contribuição do corpus, que não se negou a ser ouvido na consecução da escrita acadêmica.
Havia uma troca especial naquelas manhãs de Boa Viagem, em que de um lado  era perseguido o conhecimento e de outro, a sobrevivência: revezamento de aluno e mestra na dignidade da relação que ultrapassa a problemática pessoal, na doação ao trabalho de engrandecimento das vocações. Apesar das minhas dificuldades de saúde, não aconteceu qualquer deslize na disciplina do autor deste livro que já trazia tudo pronto, precisando apenas de algumas indicações  formais.
A poesia que desnuda o engano sem propor uma verdade absoluta, o tratando dos signos de uma maneira inovadora, para além do estereótipo; literatura como luta e também prazer, desmontando expressivamente as mitologias da cultura burguesa, sem deixar de levar em conta a esfera dos sentidos,  a participação do corpo no discurso do intelecto. Memória como parte essencial da ação e não simples representação, vetor da diferença e similitude do pensamento contemporâneo. Uma passagem da posição diante do mundo a uma ação nele: estes alguns tópicos específicos abordados por Moisés, nestas quase quatrocentas páginas inaugurais sobre a produção literária  do poeta, professor e pensador da cultura brasileira Jomard Muniz de Britto, que em boa hora o SESC decidiu levar para um público maior do que o estritamente acadêmico. Vamos todos à leitura." (Lucila Nogueira)

O que é trabalhar como ator?

" O teatro é inglório. Todo dia você repete aquele processo e todo dia corre o risco de fracassar. Será que se foi bom hoje vai ser bom amanhã? Isso depende de muita coisa. Muitas vezes você vê uma pessoa falar: “Vi um espetáculo maravilhoso”, você vai ver e não acha grandes coisas. É que, independente da vontade do elenco, a mágica não aconteceu naquele dia. Não é todo dia que é maravilhoso.
Para a gente que viveu o apogeu das grandes produções, teatro hoje, um monólogo ou diálogo que fica um mês em cartaz e depois sai, é triste! É teatro de catacumba.
O ator que ambiciona trabalhar com dramaturgia costumava ter uma base no palco. Com o tempo, passou a existir uma formação voltada especificamente para a televisão.
Hoje, por incrível que pareça, existem cursos para atores de televisão! Eu fico observando e imagino que lá a pessoa aprende o naturalismo da TV. Digo naturalismo sem querer ofender os índios.
As pessoas começam lá num programa juvenil, saem do Big Brother, aí vão melhorando. Algumas com o tempo se aprimoram e viram bons atores de televisão. Existem tantas possibilidades de atuação hoje... e, se existem, é porque tem mercado para isso. A indústria da imagem requer reposição de peças, sempre digo isso. Claro que os cursos de teatro mesmo formam atores com consistência, em programas que foram cumpridos por quatro ou cinco anos.
A gente não pode ignorar o meio eletrônico. O teatro é um artesanato arcaico, não vai morrer. Porque a necessidade de discutir e emocionar com o sentimento do ser humano nunca vai deixar de existir. Pode não ser para 40 milhões de espectadores, um bilhão de espectadores, mas nem que seja para 20 pessoas numa sala. O processo da indústria da imagem é o da substituição de peças. Para quem vem do teatro, como eu, a formação é difícil. Dez anos de teatro não significam nada. Com 10 anos de teatro você está começando. E se você estourar numa primeira peça, pode ter a certeza de que vai comer pó de palco por mais 10 anos. Porque é um artesanato lento e raramente chega por obra do divino espírito santo. 



O jovem Ator de hoje em dia está focado em outro tipo de Teatro. O teatro atualmente não tem vez. Não todo ele, porque teatro musical é teatro. Falo do teatro da palavra, o teatro da ideia, o que pode trazer alguma inquietação, uma contestação, como o que minha geração viveu. O teatro era um campo de debate emocional. Isso, hoje em dia, não tem. Nas opções das comissões que distribuem os dinheiros e os investimentos para a diversão, o teatro da palavra está muito desacreditado. Estão jogando nos musicais, nas comédias, mais no entretenimento do que no lado mais atuante, na posição de cidadania que o teatro tem muito. 


Breno Fittipaldi e Wellinton Júnior, cena do Espetáculo "Orgia:
Túlio Carella e o teatro do Insólito"
(Texto Moisés Monteiro de Melo Neto
Direção:Breno Fittipaldi)



se você leva esse ofício a sério, entra todos os dias no palco, seja encenando uma comédia leve ou uma tragédia grega. Você tem que se exibir inteiro, tem que estar em carne viva. Porque a pessoa saiu de casa para te ver, pagou, pegou uma cidade de trânsito difícil, você tem que dar o seu melhor.
A diferença entre Atuar para Teatro e Televisão e Cinema é a montagem. A montagem salva o Ator. Eu já fiz cena com um jovem ator que tinha de se estertorar de desespero porque sua jovem mulher estava morrendo de parto. Nós ficamos uma noite inteira repetindo. Eu era a parteira, que estava ali do lado. E repetimos, repetimos. E se gravou, se gravou. Depois, o diretor pegou as melhores partes daquele jovem ator e ficou uma coisa maravilhosa. Mas ele fazer isso em teatro... compreende? Essa é a mecânica do montador, do repetir, do se não chora, pinga lágrima, do faz de novo. Por isso, esse outro rapaz pode dizer que não lê e não vai ao teatro. Porque ele funciona muito bem na TV, mesmo sendo ignorante ? e falo essa palavra não no sentido de ofender, mas da pessoa que ignora, que nunca leu Dostoiévski. Porque ele vive feliz sem ler. Porque ele vai para aquele meio de trabalho e lá repete, tartamudeia, e na segunda novela já fala melhor. Alguma coisa vai se movendo com o ofício, e ele vai aprendendo aquela linguagem específica. Muitos que nunca pisaram no palco fazem uma carreira brilhante na televisão e no cinema, porque o método de trabalho é que nem o Jack, o Estripador, é por partes. O montador bota de você a parte que ele quiser. Você é uma matéria-prima que vai ser moldada por um diretor e por um montador. Essa linha de montagem da indústria da imagem requer outro tipo de linguagem, um outro tipo de ator. Hollywood disse que tem que ter o jovem lindo com dentadura linda, cintura fina, peito largo, músculos latejando. E a menina tem que ser linda, deslumbrante, ter um sorriso maravilhoso. Isso você não encontra nos palcos do Brasil nem do mundo inteiro. Mas você encontra nas passarelas, na praia.
Se o cara ou a menina estão na rua, são bonitos, e alguém pergunta: “Quer ser ator de televisão?”, claro que a pessoa responde que quer. E a família também incentiva. Quando eu era criança, toda menina queria ser professora. Hoje ninguém quer ser professor porque pagam muito mal, não são respeitados. Mas o que dá glória imediata é você, desde os 14 anos, parar de comer e virar modelo. Existe um mercado para isso. Não estou sendo preconceituosa. Toda maneira de amar vale a pena. E tem também os jovens atores maravilhosos, que se agrupam, que fazem projetos. E, quando chegam à televisão, você percebe que são atores bem formados. Temos uma boa tropa jovem nos palcos. Com responsabilidade cênica, que encara aquilo como projeto de vida. E, dentro dos meios eletrônicos, tem uma turma que está tentando melhorar, chegar ao seu momento de glória. Os tempos vão passando. Uns deles são cuspidos, outros se aprimoram, mas muitos deles não querem chegar perto de um palco.
Vocação não é para fugir dela. Nós fazemos aquilo de que gostamos! O trabalho é duro. Mas não é com o suor do nosso rosto que ganhamos nosso pão. Não há condenação bíblica! O artista não está desvirtuado do seu chamado. Acho que a gente foge disso. Escapa. Porque o cara ter que ganhar a vida com o suor do seu rosto é uma condenação. O artista sofre, é desassossegado, é desconfortado, mas não é um condenado.", Fernanda Montenegro, Atriz

sábado, 12 de setembro de 2015

Globo sofre atentado: ataques continuam

Interessante assistir aos Dez Mandamentos no R7 da Record: o duelo do faraó Ramsés (o Hórus vivo, o amado de Pitah!)  com Moisés. Os autores dos textos de Ramsés e de Yunit merecem aplausos comedidos em termos de estética pop (reinventando a cultura egípcia, trazendo-a ao sotaque carioca/ paulistano), ao mesmo tempo de cunho dramático,  (judaico) e permeado por certo erotismo velado, estonteante: as mulheres ultrapassam a noção de beleza e invadem a elegância e o luxo. Nefertari, Camila Rodrigues,  está quase  impagável, mas claro que Anne Baxter já mostrou que o impossível é realizável por uma atriz determinada (perseverante em suas intenções) quando esteve na pela da personagem no filme de Cecil B. De Mille.

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Anne Baxter já mostrou que o impossível é realizável,

Já o Moisés da Record, num cotejo com o ícone dos 50´s em Hollywood, aparece numa leitura que o aproxima do nosso padrão nacional. Denise Dell Vechio
O ator fica pequeno diante do faraó da emissora evangélica. Isto não podíamos dizer da ambígua canastrice de Charlton Heston:

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ambígua canastrice de Charlton Heston

Na TV aberta os comerciais de cerveja e produtos farmacêuticos fazem o arroz de festa onipresente, só falta aparecer, de modo direto, nas cenas do folhetim. inclusive Xuxa já consegui voltar no tempo com cicatricure e participar do casamento do soberano num remix exibibido no programa dela (na mesma emissora da novela). No final Xuxa, já ao vivo, "volta" a conversar com seus convidados, e diz gostei muito de ir ao "castelo" do Faraó.
E nesta sexta-feira, dia 11 de setembro o bombardeio atingiu A Regra do Jogo, de frente, e detonou: deu de 21 contra os vinte da Globo. Um atentado!
Olha a foto aí embaixo. Meio brega o cenário? Nesta cena Sérgio Marone e Guilherme Winter estão num duelo, até agora desfavorável ao segundo, em cenas passadas, refiro-me à perfomance em cena.

Entendem o que digo? Não é só na altura...


A carpintaria da trama chega às franjas do fundamentalismo no que toca a certos dogmas, já no caso egípcio há uma espécie de avacalhação da fé, como eles chamam, (cultuada nos templos dos "idólatras"). É o exótico pelo exótico onde o discurso subjacente de cunho ideológico é disfarçado em imagens icônicas, de uma assepsia ímpar.  Mas vamos nos lembrar que A sensualidade é um dos vieses da trama:

Absolute no regrets...


Cultura egípcia e "orientalismo", aos moldes de Edward Said?



Cerveja, divóricio, prostíbulo, assassinatos, relações extraconjugais, e muito mais, num labirintos de personagens com apenas duas dimenões, ou, no caso de uma escanada em HD, cheio de detalhes apetitosos; só isso; aos poucos até animais ganham ares de personagens, é o caso do gato do casal Szafir e Babi Xavier, que às vezes os espectadores são informados sobre sua vida.
Dizem que cada capítulo custa um milhão de reais.

E as pragas, trazidas pela voz que fala com Moisés, continuarão esta semana: as moscas devem causar muitos inconvenientes na concorrência. Imaginem quando os escravos estiverem a sós no deserto!
E os gafanhotos? E o bezerro de ouro! E o "não passarás o Jordão"?

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SETEMBRO das sobras de agosto aos suspenses em outubro


Jomard Muniz de Britto, jmb
 
GODARD em 3D pode suspeitar do
superoutro ilusionismo ou eterno retorno aos
deuses pré-socráticos. Virtual cinemágico.
Setembro sem ilusões mitificadoras.
Tudo poderia ter recomeçado em O Som ao
Redor tão cruelmente laCANINO.
Uma de suas personas, um cão, cachorro
pertencente a ele próprio, Jean-Luc,
identificado nos créditos como Roxy Miéville.
Setembro sem TEMERidades.
Circuitos do sublime ao grotesco.
Quase IMAGENS AO REDOR. Ocupem.
Pelo tempo-espaço em que acordamos
nos perigos da comunicabilidade.
Circunvoluções.
Os buracos negros podem nos reconduzir ao
universo paralelo das invenções.
Aos leitores do mundo as credenciais para
exercitar compreensão diante dos
interrogatórios de Karol, com K, entrelugar 
de Kafka aos OUTROS CRÍTICOS.
Quem estaria religado aos indígenas do
Xingu querendo reconhecimento do
QUARUP como patrimônio nacional???
Debates sem fulcros psicopatológicos.
Ouviram setembro investigar a METAFÍSICA
DOS CANIBAIS? O pensador Eduardo Viveiros
de Castro reinventa lin gua gens.
Jean-Luc Godard sabe enfrentar o
perspectivismo  do Livro de MAO a
O AMOR DAS SOMBRAS de Ronaldo Correia
de Brito. Erudições galopantes!
Mas Naná Vasconcelos continua
atravessando ABISMOS: da Universidade do 
Samba de Sítio Novo com a estética da
delicadeza entre Paulinho da Viola e 
Aristides Guimarães.
Setembro BRASILÍRICO reencantando 
Alaíde Costa com Gonzaga Leal.
Setembro ainda vislumbra o BOI do 
inventivo Gabriel Mascaro.NEON BOI por todos.
 
Recife, setembro de 2015

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Ah, sete de setembro de 2015! Pixuleco e outros trecos

O grito dos excluídos na Avenida Conde da Boa Vista com um carro pintado de verde e amarelo. Ao som de A cidade, do CSNZ e bandeira da CUT. O discurso de Dilma, em Brasília foi ao ar pouco antes. Confiança, citação ao menino morto que chocou o mundo esta semana, chocou como uma selfie que volta depois de ser deletada. Duas faixas chamaram minha atenção: “QUE OS RICOS PAGUEM A CONTA” e “ABAIXO O PLANO RENAN-LEVY”. Enquanto Dilma anunciava na TV que o vencedor da Olimpíada Intelectual era, dentre tantos estrangeiro, nosso “medalha de ouro” no conhecimento, (como terá sido a prova?), um brasileiro cujos pais eram beneficiários do Bolsa Família. Continua a parada na Boa Vista: A defesa do voto democrático; a necessidade de um novo projeto político (com menos corrupção?); abaixo agrotóxicos, “MST, essa luta é pra valer!” (no trio elétrico eles cantaram pela reforma agrária).

 A presidente diz que os refugiados políticos podem vir para o Brasil, terra de oportunidades, que resiste mesmo quando seus “parceiros internacionais” caem (China, Grécia?), os emergentes. Na mídia ecoava ainda a frase do ator Bruno Gagliasso, escolhido pela Globo para participar do Brazilian Day, pela Globo News, em New York City:  “O PT, a situação em que o país está, o nível de corrupção e ineficiência que atingimos e a sensação de que estamos reféns desta realidade me deixa muito irritado”, e como ele foi “descascado”, por simpatizantes do Partido. Diogo Mainardi (!) apoiou Bruno Gagliasso, lá de Veneza, onde mora. não tem como dizer que ele não tinha razão.


Resultado de imagem para pixuleco

O fetiche chegou a tal ponto que se criou um vodu, isto é um boneco ao qual deveriam ser atribuídas, com culpabilidade, certas ofensa, e, talvez, por um estranho processo mágico, que passa pelo humor satírico, tudo seria consertado (ou na paranomásia de um concerto mais amplo); o nome do bonequinho de doze metros? É Pixuleco. Aliás, este nome, associado à imagem icônica, daria todo um trabalho intersemiótico Já dizia o Padre António Vieira: "Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias"


E o coração deixado nos céus de Brasília pelo pessoal da esquadrilha da fumaça? O desfile das forças militares.. um pequeno grupo pedindo a volta do regime militar... saíram rápido... em Brasília, claro.


domingo, 6 de setembro de 2015

Revista E de Agosto entrevistou Jomard Muniz de Britto. Escritor, professor e cineasta fala sobre cinema pernambucano, cultura nordestina e a experiência de ter sido parte da equipe do educador Paulo Freire na década de 1960. Leia parte da entrevista


JOMARD MUNIZ DE BRITTO

ESCRITOR, PROFESSOR E CINEASTA FALA SOBRE CINEMA PERNAMBUCANO, CULTURA NORDESTINA E A EXPERIÊNCIA DE TER SIDO PARTE DA EQUIPE DO EDUCADOR PAULO FREIRE NA DÉCADA DE 1960

Intelectual de diversas facetas, Jomard Muniz de Britto é escritor, poeta, cineasta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Formado em Filosofia pela Universidade do Recife (hoje UFPE), integrou a equipe inicial do Sistema Paulo Freire de Educação de Adultos na década de 1960. Foi realizador de filmes emblemáticos como O Palhaço Degolado (1977), assinou o histórico manifesto do Movimento Tropicalista publicado em 1968 e é autor de livros como Do Modernismo à Bossa Nova (Ateliê Editorial, 2009), Contradições do Homem Brasileiro (Tempo Brasileiro, 1964), Atentados Poéticos (Edições Bagaço, 2002) e Arrecife de Desejo (com João Denys; Editora Leviatã, 1994). Nesta entrevista, Jomard fala sobre cultura, cinema pernambucano e educação no Brasil.

Você fez parte da equipe de Paulo Freire e acabou sendo afastado da universidade durante a ditadura. Como foi aquela experiência?
Nós, que éramos da equipe inicial do Paulo Freire, fomos todos responder a um inquérito e fomos aposentados. No meu caso, eu tinha 27 anos de idade e fui aposentado. Paulo Freire lançou uma proposta muito curiosa em que não queria livros de leitura, que ele achava que já estavam condicionados. Fazia-se antes uma pesquisa do universo vocabular daqueles que seriam alfabetizados e a partir dali você via quais palavras seriam debatidas dentro desse universo.

Para mim, o mais importante do Paulo Freire é que antes de entrar a palavra em discussão ele fazia uma apresentação sobre natureza e cultura, porque os não alfabetizados, com esse debate, chegavam à conclusão de que o ser humano, mesmo analfabeto, tinha cultura, produzia cultura. A novidade é que Paulo Freire introduziu o debate antropológico, porque eram os seres humanos diante da natureza e da cultura, como eles transformavam isso. Era tudo em círculos de cultura, não havia sala de aula. Para mim, essa é a grande originalidade do Paulo Freire.

A educação, naquele momento no Brasil, dava cadeia. Hoje, mudou a visão sobre educação? Como você vê essa questão?

Nas décadas de 1960 e 1970, a palavra planejamento era considerada uma palavra perigosa, porque lembrava os planos quinquenais da Rússia, e quando o Celso Furtado falava em planejamento para o desenvolvimento, nas reformas de base, os golpistas não aceitavam nada disso por ser um processo de democratização. Os analfabetos não tinham direito ao voto e passariam a ter direito a voto. Ultimamente, o que eu vejo é que tem se enfatizado muito a importância da educação, junto da saúde e da segurança. O movimento maior que eu vi em relação a isso foi em junho de 2013, em que se falava da educação junto da saúde e da segurança.

Como professor aposentado, você acha que, no caso brasileiro, o caminho da modificação do Brasil continua sendo a educação?

Não é, porque nunca foi. No tempo do Paulo Freire, na década de 1960, não se dizia que a educação era tudo. Falava-se nas reformas de base, incluindo o processo educativo. Acho que a educação que se defende hoje é uma educação de atualização tecnológica. Acho que continua sendo tão politizado quanto na década de 1960. O problema do analfabetismo ainda continua, e é um problema sério. Não acho que exista nenhuma apropriação por governo nenhum da educação. As coisas hoje em dia não têm aquela preocupação de conscientização sociopolítica que havia na década de 1960. Hoje o Brasil é diferente e não sinto nenhuma tentativa de apropriação da educação dando uma nova tonalidade. A revolução da educação hoje é a internet, a atualização das coisas.
Quanto à internet e essas tecnologias, como você observa que tudo isso pode ter modificado o sertão nordestino?
Acho que ninguém tem nada ainda estudado sobre isso. Se você vai para o sertão, você vê mesmo as casas pobres com antenas parabólicas. Não estou dizendo que isso é bom nem ruim. São fontes de informação. A cultura regional nordestina como existia antigamente não existe mais. Ela existe nos folguedos, cirandas, bumba meu boi, que se movimentam, se transformam, se atualizam, são influenciados.

Tudo isso continua existindo, e é ótimo que isso esteja em transformação. Tem que estar. Agora não vamos ficar preocupados em rotular isso como sendo para melhor ou pior. Acho que é um processo. Você encontra pessoas morando no centro da cidade e muito ligadas a fazer poesia de cordel, que é uma coisa mais relacionada ao interior, a regiões mais afastadas. A poesia de cordel hoje em dia é objeto de doutorado na USP, então a literatura de cordel continua existindo e vai se transformando.

No interior de Pernambuco você encontra os cordelistas que fazem poesia dentro do esquema do cordel e usam a internet, estão antenados. As tecnologias vão atualizando essas culturas que antes a gente chamava de regionais. A coisa do regionalismo como existiu na década de 1930, 40 e 50 não existe mais. Não existe essa separação entre nordestino, regional e internacional. Tudo está existindo ao mesmo tempo.

Como fica a imagem do sertão diante disso tudo?

O regionalismo clássico da década de 1930 ficou lá. Essa imagem está estilhaçada. O sertão sobrevive, com toda a sua ancestralidade, mas essa ancestralidade convive com a contemporaneidade. A contemporaneidade é justamente o embaralhamento de tudo. O único que teve essa visão do Nordeste foi o Glauber Rocha, que é gênio. Agora o sertão não pode ser mais o de Euclides da Cunha [autor de Os Sertões] e nem mesmo o de Vidas Secas [livro de Graciliano Ramos]. Talvez o único que sobreviva na contemporaneidade é o sertão de Grande Sertão Veredas [livro de João Guimarães Rosa], porque psicanaliticamente trabalha com a linguagem e os significantes, não só com os significados.

Quanto ao cinema pernambucano, você observa alguma característica que una esses diversos diretores que surgiram no estado nas últimas décadas?

Não vejo isso. O Cinema Novo [movimento cinematográfico brasileiro criado nos anos 1950] por exemplo, com toda a diversidade tinha um ideário de pesquisar a linguagem para enfrentar a dominação dos cinemas nas salas de exibição. Havia uma unidade. Desde o Super-8 [movimento do cinema pernambucano que surgiu na década de 1970] duas tendências ficaram correndo paralelamente: uma linha mais documental, mais ligada ao realismo, digamos assim, e uma linha mais anarco-crítica.

Essas duas linhas do Super-8 estavam muito bem definidas. Hoje em dia a coisa é bem mais diversificada. Não diria que há um diálogo entre correntes. Cada cineasta tem a sua ou as suas propostas. É isso que eu gostaria que tivesse na abordagem da educação, esse pluralismo estético e ideológico.

A diversidade temática e estilística do cinema contemporâneo pernambucano pode ter influenciado o fato de esses cineastas estarem sendo premiados mundo afora? Isso brotou de onde?

O novo cinema pernambucano foi iniciado com Baile Perfumado (1996), um filme que vem com uma coisa da região, mas ao mesmo tempo com a mitologia, porque o Lampião já é uma figura mitológica. Acho que esse cinema sabe jogar com coisas que têm um enraizamento local, mas ao mesmo tempo um enraizamento planetário.

Todos esses cineastas passaram pelos cursos da universidade, mas todos têm a sua tendência própria, a sua pesquisa. Além disso, existe uma camaradagem. Esse grupo colabora entre si. Embora com as diferenças todas, há um sentido de colaborar.

No caso do cinema de Recife, existe uma urbanidade que aparece em diversos filmes. Que urbanidade é essa que se vê hoje no cinema de Pernambuco?

A característica principal é a das contradições. Digo que além das contradições são as contradicções, que é justamente você misturar o mito com o contramito, o ancestral com o contemporâneo, aquilo que tem um espírito de sublime com o grotesco. Mais do que uma bipolaridade, é uma transpolaridade. Toda obra de criação mostra a sua cidade e tenta descobrir a poeticidade do local, seja ela sublime ou grotesca.

O que me impressiona no cinema pernambucano são as estéticas e os olhares múltiplos.  Uma coisa que acho que é pernambucana é a visão polêmica das coisas. Isso faz parte da nossa cultura. Esses filmes estão fazendo sucesso porque têm um toque que não é consensual. Não existe consenso, existe polêmica.
[...]
Essa contribuição do cinema pernambucano, que mostra uma realidade de fora da visão do eixo Rio-São Paulo, é resultado de um Brasil contemporâneo?

E também das divisões culturais. Por exemplo, por que a Bahia, que tem cineastas incríveis na nova geração, não conseguiu ter a repercussão que o daqui teve? Aí entra um problema de marketing, entra a ligação entre cineastas e o pessoal da imprensa do Rio e de São Paulo. O cinema de Pernambuco conseguiu, realmente.
O fundo setorial para financiamento de audiovisual influenciou esse desenvolvimento em Pernambuco?
Todos os estados têm esse financiamento, mas aqui isso foi muito cobrado. É interessante porque nos últimos anos as autoridades perceberam a importância desse setor do audiovisual para o próprio país. Há uma percepção de que o audiovisual conta a história e leva o país de uma maneira muito forte e muito fácil para diversos lugares.


“TODA OBRA DE CRIAÇÃO MOSTRA A SUA CIDADE E TENTA DESCOBRIR A POETICIDADE DO LOCAL, SEJA ELA SUBLIME OU GROTESCA. O QUE ME IMPRESSIONA NO CINEMA PERNAMBUCANO SÃO AS ESTÉTICAS E OS OLHARES MÚLTIPLOS”

“A CULTURA REGIONAL NORDESTINA COMO EXISTIA ANTIGAMENTE NÃO EXISTE MAIS. ELA EXISTE NOS FOLGUEDOS, CIRANDAS, BUMBA MEU BOI, QUE SE MOVIMENTAM, SE TRANSFORMAM, SE ATUALIZAM, SÃO INFLUENCIADOS. TUDO ISSO CONTINUA EXISTINDO, E É ÓTIMO QUE ISSO ESTEJA EM TRANSFORMAÇÃO”

“CADA CINEASTA [DO NOVO CINEMA PERNAMBUCANO] TEM A SUA OU AS SUAS PROPOSTAS. É ISSO QUE EU GOSTARIA QUE TIVESSE NA ABORDAGEM DA EDUCAÇÃO, ESSE PLURALISMO ESTÉTICO E IDEOLÓGICO”


“UMA COISA QUE ACHO QUE É PERNAMBUCANA É A VISÃO POLÊMICA DAS COISAS. ISSO FAZ PARTE DA NOSSA CULTURA. ESSES FILMES ESTÃO FAZENDO SUCESSO PORQUE TÊM UM TOQUE QUE NÃO É CONSENSUAL. NÃO EXISTE CONSENSO, EXISTE POLÊMICA”


sábado, 5 de setembro de 2015

A LITERATURA de Cabo Verde (pesquisa realizada pelos alunos do Professor Moisés Neto para debate em sala de aula)




A LITERATURA de Cabo Verde
O romance "Chiquinho", publicado pelo já falecido escritor cabo-verdiano Baltasar Lopes da Silva, constitui "a obra fundadora da literatura" de Cabo Verde, defende o tradutor italiano Vincenzo Barca.
Segundo o professor, que traduziu para italiano a obra publicada pela primeira vez em 1947 e que é alvo de estudo no ensino secundário em Cabo Verde, em "Chiquinho", Baltasar Lopes da Silva "apresenta uma espécie de súmula de toda a cultura cabo-verdiana".
 Vincenzo Barca é professor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de Roma III e está em Cabo Verde a participar na conferência ""A Herança de Chiquinho: Com os Pés Fincados em Itália", para homenagear o autor cabo-verdiano, nascido em Caleijão, ilha de São Nicolau, a 23 de Abril de 1907, e que faleceu a 28 de Maio de 1989 em Lisboa.
Baltasar Lopes da Silva foi, com Manuel Lopes e Jorge Barbosa, fundador da revista Claridade, tendo usado, nalguns dos seus poemas - também foi poeta - o pseudónimo Osvaldo Alcântara.
 "O nome de Baltasar Lopes da Silva é incontornável na literatura, cultura e educação de Cabo Verde. Escritor, poeta, linguista e ensaísta, foi um homem da escrita que revolucionou a sua época com o seu multifacetado talento", disse Vincenzo Barca, que já traduziu para italiano muitos dos autores de Língua Portuguesa.
Venerado em Cabo Verde, onde é nome de rua e de escola, o escritor cabo-verdiano foi, em 1957, o primeiro dar conta da existência de vários dialetos crioulos no arquipélago.



PERIODIZAÇÃO

1ºPeríodo, das origens até 1925. a que chamaremos de Iniciação, por, a par de grandes vazios, abranger umavariada gama de textos (não necessariamenteliterários) muito influenciados pelas duas fases do baixo romantismo e do parnasianismo (embora com iniciativas de alguma vocação regionalista ou mesmo de «vocação patriótica», no primeiro quartel do séc. XX), antes da fase moderna.
Em Cabo Verde, após a introdução do prelo, em 1842, e a publicação do romance cabo-verdiano de José Evaristo d’Almeida, O escravo (1856), em Lisboa, segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935), de Jorge Barbosa, e da revista Claridade (1936), Fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros […]. A criação, em 1 866, do Liceu-Seminário de SãoNicolau (Ribeira Brava), que durou até 1928, muito contribuiu para o surgimento de uma classe de letrados equiparável ou superior à dos angolanos. Em 1877, criou-se a imprensa periódica não oficial. […] 
O 2° Período, de 1926 a 1935, a que chamamos Hesperitano, antecede a modernidade que o movimento da Claridade (1936) incarnou. Desde os primeirostempos, até ao final deste 2° Período, entendemos, com Manuel Ferreira, que vigorou o Cabo-verdianismo, caracterizado como de «regionalismo telúrico», masque, nalguns textos, se expande para temas e elementos recorrentes da literatura cabo-verdiana, como os da fome, do vento e da terra seca, ou de certainsatisfação e incomodidade, numa atmosfera muito próxima do naturalismo.
O fundamento que leva a que se possa designar tal período como Hesperitano ressalta da assunção do antigo mito hesperitano ou arsinário. Trata-se domito, proveniente da Antiguidade Clássica, de que, no Atlântico, existiu um imenso continente, a que deram o nome de Continente Hespério. As ilhas de CaboVerde seriam, então, as ilhas arsinárias, de Cabo Arsinário, nome antigo do Cabo Verde continental, recuperado da obra de Estrabão.
Os poetas criaram o mito poético para escaparem idealmente à limitação da pátria portuguesa, exterior ao sentimento ou desejo de uma pátria interna,íntima, simbolicamente representada pela lenda da Atlântida, de que resultou também o nome de atlantismo hesperitano, por oposição ao continentalismoafricano e europeu. […] 
3.° Período, que principia no ano de 1936 (ano da publicação da revista-mater Claridade) e vai até 1957, muito mais tarde do que a fase a que Luís Romanochama dos «Regionalistas ou Claridosos» (para ele termina com os neo-realistas da revista Certeza, de 1944) […].
Ainda em 1941, sai Ambiente, livro de poemas de Jorge Barbosa. António Nunes publica, depois, os Poemas de longe (1945) e Manuel Lopes, os Poemas dequem ficou (1949), a que se segue o romance fundador Chiquinho (1947), de Baltasar Lopes, passando pelo Caderno de um ilhéu (1956), de Jorge Barbosa, e oprimeiro romance de Manuel Lopes, Chuva braba (1956). Todos sem interferência da Negritude, mas, curiosamente, coincidindo no tempo as publicações de neo-realistas e claridosos, não sem que, entretanto, fossem impressos livros deslocados no tempo, como os Lírios e cravos (1951), de Pedro Cardoso, e asPoesias (1952), de Januário Leite, poetas do cabo-verdianismo. […] 
4.° Período, indo de 1958 a 1965, em que, com o Suplemento Cultural, se assume uma nova cabo-verdianidade que, por não desdenhar o credonegritudinista, se pode apelidar de Cabo-verdianitude, que, desde a sua ténue assunção por Gabriel Mariano, num curto artigo (1958), até muito depois dovirulento e celebrado ensaio de Onésimo Silveira (1963), provocou uma verdadeira polémica em torno da aceitação tranquila do patriarcado da Claridade. DoSuplemento Cultural do Boletim Cabo Verde fizeram parte Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Aguinaldo Fonseca, Terêncio Anahory e Yolanda Morazzo. […] 
5.° Período, entre 1966 e 1982, do Universalismo assumido, sobretudo por João Vário, quando o PAIGC (acoplando forças políticas de Cabo Verde e da Guiné-Bissau) se achava já envolvido, desde 1963, na luta armada de libertação nacional, abrindo, aquele poeta, muito mais cedo do que nas outras colónias, afrente literária do intimismo, do abstraccionismo e do cosmopolitismo: aliás, só depois da independência, e passado algum tempo, surgiu descomplexada e polémica, sobretudo em Angola e Moçambique. Podemos datar de 1966, com a impressão dos poemas, em Coimbra, de Exemplo geral, de João Vário (João Manuel Varela), essa viragem, que, diga-se, pouco impacto veio provocar. […] 
6.° Período, de 1983 à actualidade, começando por uma fase de contestação, comum aos novos países, para gradualmente se vir afirmando como verdadeirotempo de Consolidação do sistema e da instituição literária. O primeiro momento é dominado pela edição da revista Ponto & Vírgula (1983-1987), liderada porGermano de Almeida e Leão Lopes […]. 
(Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp.180-185)






A literatura cabo-verdiana caracterizava-se por um desprendimento quase total do ambiente, sublimando-se numa expressão poética que nada tinha em comum com a terra e o povo do arquipélago.
O impacto do colonialismo não foi tão drástico, impulsivo e dramático em Cabo Verde como o foi nas outras regiões africanas que passaram pelo processo de colonização portuguesa. Este ocorrido acabou criando condições que foram importantes para o surgimento da literatura cabo-verdiana.
O grande passo para a virada da temática da literatura produzida em Cabo Verde foi dado em 1936, na Ilha de S. Vicente, por um grupo de intelectuais, que lançou a revista Claridade. Os intelectuais que possibilitaram a publicação da revista foram, Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa
A poesia de Manuel Bandeira foi uma grande inspiração para os intelectuais cabo-verdianos, que também destacaram Jorge de Lima e Ribeiro Couto como descobertas instigantes. Vejam-se os versos do poema “Palavra profundamente”, de Jorge Barbosa , dedicado ao poema de mesmo nome de Manuel Bandeira:
[...]
Enquanto isso Manuel Bandeira vai passando
por nós no tempo
na sua alegria melancólica
na sua alegria de coração apertado
vai passando na sua
poesia profundamente.

Jorge Barbosa também se define como um poeta inovador, ao dar à sua poesia uma entonação dramática e traduzida denúncia.Um poema que marca a escrita de Jorge Barbosa, de um “eu” em constante tensão com um ambiente exterior é Prisão:

Prisão

Pobre do que ficou na cadeia
de olhar resignado,
a ver das grades quem passa na rua!
pobre de mim que fiquei detido também
na Ilha tão desolada rodeada de Mar!...
... as grades também da minha prisão!



A cultura cabo-verdiana tem o seu coração a pulsar na poesia, espelhada nas mornas, nas histórias de sabor popular e nas novelas... a sua alma gira em torno da "sodade", termo que deriva da ‘"audade" portuguesa.
O primeiro movimento poético cabo-verdiano eclodiu em 1890, não refletindo ainda, propriamente, sobre a identidade cabo-verdiana, mas como estrita derivação do gosto português. O movimento nasceu em São Nicolau, à época o centro intelectual de Cabo Verde. Este período, dito clássico, durou até 1930. O compositor e poeta Eugénio Tavares, que recriou e popularizou a morna, introduzindo as letras da música em crioulo, foi um ilustre representante desta corrente literária.
Em 1936 um novo movimento literário veio substituí-lo. Estava centrado na revista literária "Claridade" e tinha como ponto de referência a cultura Crioula e as condições de vida da população. Baltazar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes, três nomes fundamentais da literatura das ilhas, introduziram um novo estilo no labor poético, refletindo sobre o paradoxo que sempre atormentou o cabo-verdiano e que consiste no desejo de sair quando é forçado a ficar e no desejo de ficar quando é obrigado a partir
Atualmente, os escritores cabo-verdianos estão ocupados em recriar o seu enraizamento africano. Entre eles destacam-se Germano de Almeida e Corsino Fortes.

Os escritores cabo-verdianos Corsino Fortes (Pão e Fonema, 1974), Danny Spínola (Os Avatares das ilhas, 2008), Fátima Bettencourt (Um certo olhar…, 2001) e Vera Duarte (poeta e Ministra da Educação), estiveram no país para falar sobre as interculturalidades e intertextualidades entre Cabo Verde e Brasil.
Após uma escala na 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, os escritores foram convidados para participar do evento “Diálogos Atlânticos: Cabo Verde e Brasil”, que aconteceu última segunda-feira (19), no Anfiteatro da Reitoria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Os autores cabo-verdianos palestraram para um grande público presente e também concederam uma entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate.

Para Jorge Valentim, professor de literaturas portuguesas e africanas da UFSCar que organizou o evento, a participação dos autores nos “Diálogos Atlânticos” forneceu uma maior “visibilidade, não apenas à disciplina, mas ao nosso objeto de pesquisa que é o das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, especificamente de Cabo Verde. O evento também foi uma espécie de resposta, porque as pessoas acham que a África está tão longe de nós, e os quatro escritores vieram provar não pela fala de professores, mas pela fala de escritores, que o Brasil está mais próximo da África do que podemos imaginar”.
Durante o bate-papo com o Livre Opinião, os quatro escritores falaram sobre a literatura de Cabo Verde, as relações entre a literatura e a cultura do país com o Brasil e também sobre a realidade da literatura cabo-verdiana no mundo. Confira abaixo:
Livre Opinião – Ideias em Debate: Qual o lugar da literatura de Cabo Verde no mundo?
Fátima Bettencourt: Este lugar adquiriu muita importância, pois já temos um prêmio Camões, portanto não é uma brincadeira. É uma coisa séria e que vem desde o século 17, mas tem-se conseguido pouco, pois as prioridades do país são sempre outras. Porque a terra é pobre, produz muito pouco quase nada. Então, o momento de fazer da literatura uma prioridade, eu não sei quando é que vai ser não [risos]. Mas nós vamos tentando engatinhar, fazer algumas coisas aos poucos, como este evento aqui na universidade. Também já estivemos há algum tempo na Universidade de São Paulo, pois lá há muita leitura das obras cabo-verdianas, as literaturas cabo-verdianas estão sendo muito estudadas, tem-se feito várias teses de mestrado e doutoramento em toda a obra dos cabo-verdianos, então isso dá-nos alguma animação. Mas é uma coisa muito pontual e que ainda não tem muita expressão.
Danny Spínola: Nós, em Cabo Verde, temos ainda muitos constrangimentos. Temos um espaço enorme em termos de pertencimento, que são os países de língua portuguesa, onde nós poderíamos estar inseridos, termos nossas obras neste espaço. Mas acontece que não temos grandes editoras e não temos distribuição dos livros, então o que nós editamos em Cabo Verde acaba ficando apenas em Cabo Verde, não temos essa opção de distribuição. Em Portugal, por exemplo, não há possibilidade de se fazer essa distribuição porque é muito caro, assim, é preciso ter este intercambio de fato [“Diálogos Atlânticos: Cabo Verde e Brasil”], porque são encontros como este que dão-nos a possibilidade de estarmos, por exemplo, aqui em São Carlos, fazendo a divulgação. Mas é uma coisa ainda mais no nível de convite e não uma atividade programada que nos dê essa oportunidade de levar nossa literatura para fora, então temos ainda estes tipos de constrangimentos.
Mesmo internamente, temos ainda um grande problema, pois não existe um mercado que possibilite-nos sermos editados e que nos possibilite vivermos de nossas próprias literaturas e, só então, termos a possibilidade de sair do país e mostrar nosso trabalho. Existem sim algumas editoras que vão até Cabo Verde, ou que editam ainda escritores cabo-verdianos, mas não têm uma visão ampla e acabam por escolher apenas alguns, cerceando a possibilidade de novos autores surgirem com força no mundo. Outro problema grave é que não temos críticos literários, críticos de arte… então, vês que há ainda várias questões, vários problemas em termos críticos e também comerciais, que nos impedem de termos, de fato, uma importância e uma grande visibilidade.
Vera Duarte: A literatura cabo-verdiana tem alguma visibilidade, sobretudo no mundo, porque é uma literatura escrita essencialmente em português, embora a gente já tenha alguns autores que são traduzidos em outras línguas, por exemplo, em francês e inglês. Os países africanos de língua portuguesa, além do Brasil e Portugal, têm na literatura alguma repercussão, mas devo dizer também que apesar de não haver ainda um grande movimento de tradução das obras de outros autores cabo-verdianos, muitos outros autores têm seus livros traduzidos em várias línguas. Além disso, o que se mais verifica é a presença e participação de escritores cabo-verdianos em vários países, seja da África, da América, até mesmo de países asiáticos, onde vão falar um pouco da literatura cabo-verdiana e da escrita dos escritores cabo-verdianos. Isso que é essencial para o conhecimento da literatura de Cabo Verde.
Corsino Fortes: Completando com o que disse a Vera Duarte, não há dúvida nenhuma que depois do aparecimento do Prêmio Camões a nossa expressão literária ganhou muita visibilidade e, notadamente, nas universidades também, principalmente as brasileiras. Vários escritores cabo-verdianos já são objetos de teses de mestrado e doutorado, mesmo assim o que também se deu certa visibilidade da obra foi devido a qualidade estética, abordagem e temática. Nós temos como referência na área acadêmica a professora Simone Caputo, que tem trabalhado há cerca de 40 anos sobre literatura cabo-verdiana e servindo como orientadora com muitos mestrandos e doutorandos. Não há dúvida nenhuma que entre nós isso tudo tem ajudado na divulgação das obras de Cabo Verde.
Notadamente, somos um país pacífico, não têm grandes problemas, mas de qualquer forma a literatura cabo-verdiana é muito querida e respeitada na sua qualidade estética e também no seu conteúdo. Nós esperamos que medidas políticas e diplomáticas tenham a intenção à expressão literária que se realiza hoje nos cinco países africanos de língua portuguesa, para que os livros não tenham a mesma carga fiscal que tem outros produtos, que haja uma livre circulação nas alfândegas e aeroportos. Por exemplo, nós trouxemos livros, alguns ficaram por motivos disso, é óbvio que tudo isso é um problema que tem que ser compreendido, conscientizado para que todos os países possam de fato abrir para que tudo que seja expressão cultural tenha um trânsito livre.
LOID: Quais são as principais influências da literatura brasileira nas obras cabo-verdianas? Qual a ligação que vocês têm com a literatura do Brasil?
Fátima Bettencourt: Bom, há alguns autores que não gostam que se fale em influências, mas eu, particularmente, gosto de falar. Porque, na verdade, não há nada de novo, tudo se vai aprendendo com os outros e com aquilo que já foi feito. Vamos dando nosso cunho pessoal e acho que foi isso que aconteceu conosco. Não posso garantir isso cem por cento porque não estava naquela época [risos], mas quando se começou lá o movimento Claridoso, por exemplo, que veio dar um grande impulso à literatura realmente cabo-verdiana, eles tinham lido sim o José Lins do Rego, o Graciliano Ramos, Jorge Amado e toda essa gente, então não é nenhuma asneira a gente ver que dali pegaram alguma coisa e elaboraram de outra maneira, deram suas próprias formas. Existem trabalhos feitos por investigadores que fazem uma comparação, um paralelismo, entre Manuel Lopes e Graciliano Ramos, por exemplo, principalmente no que concerne ao cunho social daquelas literaturas.
Então, há sim senhor alguma influência. Ninguém está aqui pensando que isso diminui o valor do que é escrito, pelo contrário, eu sei que o principal divulgador dos Claridosos, que era o Doutor Baltazar Lopes da Silva, nunca escondeu que lia estes livros. Ele tinha até uma frase muito bonita que dizia algo como “Caiu em nossas mãos fraternas e fraternalmente juntas os livros dos fulanos e cicranos e etc”, quer dizer, ele considerava aquilo uma coisa boa, uma coisa boa que estava acontecendo. E foi assim com a primeira leva dos escritores Claridosos, claro que depois vieram novos autores que adotaram outras técnicas, outras filosofias, literaturas e mesmo políticas, portanto, outros tipos de escrita, outras formas, outros posicionamentos e assim é. Neste assunto acredito que possa falar melhor meu amigo Danny, pois é de sua geração que estamos a falar [risos].
Danny Spínola: Pois é, sempre houve alguma intertextualidade entre escritores cabo-verdianos e também brasileiros, inclusive até na música houve sempre alguma influencia, uma dinâmica enorme em termos de encontros entre diálogos entre Brasil e Cabo Verde. No caso da literatura – vou falar de mim, pois é evidente que há diversos outros pensamentos entre a minha geração –, tivemos sempre muito mais contato também com os escritores universais, não somente os escritores cabo-verdianos, portugueses e brasileiros. Evidentemente que, em alguma altura, os cabo-verdianos não poderiam mais ficar confinados aos portugueses porque não tinham muita possibilidade de ter acesso a outros escritores – embora alguns tenham tido.
Mas, em meu caso, se eu fosse ter uma influência seria de Clarice Lispector, porque eu adoro Clarice [risos]. Mas é evidente que já convivi com vários outros escritores como Jorge Amado, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade – especialmente Macunaíma – e também vários outros poetas, desde os mais clássicos até os contemporâneos. Mas não creio que eu tenha tido influência direta deles, se calhar, talvez até tenha tido alguma, porém inconsciente. Conscientemente, acho que, se fosse ter, seria a Clarice Lispector, embora eu também goste de Cecília Meireles, Rachel de Queiroz e etc.
Fátima Bettencourt: Eu acho o seguinte: toda influência é inconsciente, senão, seria plágio [risos na mesa].
Danny Spínola: Mas não é nem que se vá fazer um plágio, pode sim haver uma influência consciente e que te vai motivar a escrever algo, como um força, como um ponto de partida, mas não realmente como plágio. Mas claro, é certo que, de se conviver com outros escritores, há frases e versos que te marcam e vão sair em tua literatura de alguma maneira, e isto é até uma coisa muito bonita.
Vera Duarte: A gente tem falado um pouco disso na palestra. Essa influência foi desde o início quando começou a ter os primeiros traços da literatura na metade do século XIX, 1850 para ser mais exato, que a primeira geração cabo-verdiana já cita escritores brasileiros como Olavo Bilac, Castro Alves, José de Alencar. Portanto, desde essa primeira geração já tínhamos vestígios de escritores cabo-verdianos terem lido os escritores brasileiros através dos livros e revistas que chegavam a Cabo Verde, sobretudo os que vinham da Europa do Norte e do Brasil e Argentina.
Depois do advento da geração modernista com a revista Claridade, esse diálogo entre Brasil e Cabo Verde se tornou mais explícito na medida em que são os próprios autores da revista Claridade que dizem que encontram nos escritores brasileiros a influência. Autores como José Lins do Rêgo, Jorge Amado, Manuel Bandeira, enfim são diversas as obras que os escritores cabo-verdianos encontraram certa cumplicidade e acima de tudo as situações sociais que verificavam existir em Cabo Verde e que fizeram muito de suas escritas um manifesto, os claridosos fincaram os pés no chão e falaram sobre as realidades do país.
Portanto, eu acho que os modernistas brasileiros tiveram um papel bastante influente para os escritores cabo-verdianos, falando genericamente.  Atualmente, as influências se tornaram mais diversificadas.
Corsino Fortes: Bom, tenho muito pouco a acrescentar do que já disse a nossa querida Vera Duarte. Na verdade, se o Movimento Claridoso apareceu em Cabo Verde e foi, podemos dizer, essencialmente a primeira tomada de consciência da posse da terra na sua expressão literária, mas também em sua relevância uma tomada de consciência política, não tão expressa porque o ambiente político não era agradável, qualquer reação contra o sistema a pessoa era presa. Não há dúvida nenhuma que esse movimento que aconteceu aqui no Brasil em 1922, que transformou o que chamam de neorrealismo chegou a Cabo Verde e foi apropriado, sendo a primeira independência em relação aos cânones literários da Metrópole [Portugal].
Já para o Brasil era a posse da terra, porque teve a independência, mas os cânones ainda eram europeus. Para Cabo Verde era também no sentido de fincar os pés no chão e termos a consciência do quem nós somos. Tudo bem, somos portugueses, mas temos uma especificidade própria. Neste sentido, começamos a buscar a nossa identidade que já vinha sendo traçada com os Nativistas, que ganhou mais vigor com os claridosos e que depois com a geração de [Amílcar Lopes] Cabral assumem a sua totalidade, uns como combatente da liberdade da pátria outros na resistência cultural até chegar de fato na independência.
Bastou a luta política no sentido de conscientização, e não há dúvida nenhuma que Brasil e Cabo Verde estavam sempre ligados, até porque existia um orgulho muito grande do Brasil independente e havia consciência disso, por isso que Cabo Verde se afastava do continente africano e começou a ter mais relações com o Brasil. Preciso dizer que houve sempre entre cabo-verdianos e brasileiros, mesmo os portugueses de esquerda, uma consciência política que  ajudaram na luta não contra Portugal e sim contra a ditadura salazarista.
LOID: Para vocês como está a literatura cabo-verdiana nos dias de hoje? Há publicações, divulgações, produções e circulações?
Fátima Bettencourt: Bom, na época da independência nós tivemos uma paralisação. Foi um momento de dizer: vamos colocar a caneta no lugar e arregaçar as mangas para resolver a situação do país, só depois vamos voltar a escrever. Tivemos esta paragem, pois foi uma mudança muito grande. Imagine ter uma bandeira e de repente subir outra, isto mexe com as pessoas, com todas as estruturas emocionais… com tudo!
Então foi isso que aconteceu, tivemos esta paragem, mas depois veio tudo de novo com muito vigor, uma vontade de escrever, de inovar, enfim, de se fazer coisas novas em literatura. Eu, particularmente, só ando a escrever contos e crônicas, tenho evitado a escrita de textos muito longos. Mas já têm me cobrado e essa brincadeira de não escrever textos longos tem também seus negativos. Enfim, há coisas que eu gosto de deixar escapar, deixar para trás, gosto de textos enxutos, sem muitos anseios.
Danny Spínola: Bom, nós não tivemos algo da mesma razão que vocês tiveram, como a Semana de Arte Moderna, não? Algo propositadamente realizado para que houvesse uma revolução em termos de escrita, em termos do ideário poético, artístico, literário. Para nós, as coisas foram acontecendo, tivemos vários e vários escritores, vários momentos. Tivemos também algumas rupturas entre alguma geração e outra em termos temáticos e até estéticos, além de termos como marco o período claridoso, que começa com a Revista Claridade e que inaugura a moderna poesia cabo-verdiana com o versolivrismo, deixando para trás os cânones clássicos das rimas e métricas, isso tudo na década de 1930.
Após a independência, como disse a Fátima, houve um momento mesmo de blackout, porque os escritores tinham já a tendência para ter uma poesia constestatória da situação colonial em que vivíamos, portanto, nós, no combate àquela imposição colonial, acabamos tendo uma paragem mesmo, não havia um motivo – no sentido de uma inspiração – claro para se escrever naquele momento de luta. Mas, depois, com o tempo, vieram sim novos escritores e mesmo os escritores que foram da Claridade e que começaram a abordar novas temáticas, novas linguagens. Além, é claro, daqueles escritores que foram da Geração Claridosa e que também são desta geração. Assim, na literatura, passamos a ter outras realidades: se antes a realidade era de seca, fome, de opressão e dessa opressão surgia a força da literatura como contestação, como reivindicação, passamos a ter outras preocupações para representar. Agora temos os espaços urbanos com muitos problemas que trazem a enfermidade ao homem, problemas psíquicos, de segurança, criminalidade, etc. Quer dizer, são outros, são novos tempos.
Portanto, temos aí uma nova geração que é ampla, heterogênea, com escritores formados por várias leituras do mundo. Há uma heterogeneidade imensa de estilo, de tema e de abordagem do mundo. Aliás, ao contrário de muitas literaturas do mundo, nós não temos escolas, ou correntes, literárias. Cada um vai escrevendo à sua maneira, cada um vai fazendo a sua literatura, consoante ao diálogo que tem com outros escritores, com o mundo.
Vera Duarte: Basicamente não podemos nos esquecer de uma coisa, nós somos um país com uma população pequena, então o público leitor não é muito, isto faz com que as edições e tiragens não possam ser de grande dimensão. Neste sentido, precisaríamos de muito mais apoio, mais possibilidades de edições, porque os nossos livros esgotam e ficam muitas vezes sem reedições. Enfim, precisaria de mais apoio, portanto, continuamos a escrever e o caminho está sendo bem trilhado.
Corsino Fortes: Nós estamos a fazer um esforço e esse esforço está ligado à criação da Academia Cabo-Verdiana de Letras [Corsino é atualmente o presidente]. Nós encontramos um governo muito aberto com ótimas ideias e espero que toda essa conjugação dos esforços possibilitará a publicação e a difusão da literatura, porque há muita gente para publicar. Existe muita gente produzindo e escrevendo só não tem condições de publicação, mas estão sendo criadas condições neste sentido. Então, temos um governo que está muito interessado, só que não há dúvida nenhuma que eu e a Vera, ela como foi ministra da Educação e eu fui ministro da Justiça, sabemos das grandes dificuldades de Cabo Verde.


Entrevistadores: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade