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domingo, 31 de maio de 2015

Relendo estudo sobre Dom Quixote, citando Oscar Wilde

. Segundo Oscar Wilde, “a vida no cárcere deixa-nos ver os homens e as coisas como realmente são. É por isso que ela endurece o coração. Quem está lá fora é que vive enganado pelas ilusões de uma vida em constante movimento. Agita-se com a vida e contribui para a sua irrealidade”. 


E foi no cárcere da Casa de Argamasilla de Alba que a consciência implacável de Cervantes lhe terá revelado esta verdade denunciadora do equívoco de toda a sua existência: andara de olhos postos no céu numa época em que todos caminhavam de pés bem firmes pela terra.


sábado, 30 de maio de 2015

Alegria, alegria: Caetano, Coca-Cola e magia negra

Uma aluna mandou essa para mim, inspirada no sangue negro do capitalismo ianque.
Me fez pensar nos meus tempos de militante, quando acreditava que o mal tinha um nome qualquer e que a canção Alegria Alegria, era de complexo entendimento apesar de uma melodia  tão envolvente na aparente simplicidade do desbunde tropicalista... caetane-se, se puder, cultura grega, magia negra, estranha sede sôfrega, imperialismo pop, vampirismo, Madeleine proustiana dos doces 16, quando a vida, para alguns, parece era uma vez...

https://www.youtube.com/watch?v=hmK9GylXRh0

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Bem diz João Cabral de Melo Neto

“o homem que lê quer ler-se no que lê” 

Cazuza no Recife, de novo!

CAZUZA - PRO DIA NASCER FELIZ

Acho meio caça-níquel que um projeto como este ganhe auxílio do governo federal.
Mas também, se não for o da frente , há de ser o de detrás, não é assim aquela cantiga das crianças, que antigamente chamavam "passarás"?
Pois bem, está aí. Não tenho vontade de ver, não muita.
Queria um bom drama, um bom texto.
O tema já foi tão explorado, cinema, vídeo, livro, etc etc etc.
Dá vertigem.
É como um ator interpretar o To be or not to be, do Hamlet.
Tem que ter nervo.

Imagino que isto seja uma colagem mal feita de cenas e números musicais.
Bete, balanço, por favor!

O Reino Unido ataca novamente

E o Reino Unido continua bombando!

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Nada tema, com Cameron não tem problema: é o "ó", não tem ok certo

 Agora Cameron saiu em turnê por quatro países europeus ameçando a saída do UK da União Europeia, se os seus membros não aceitarem as condições inglesas.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Rainha Elizabeth II mostra as garras e a doçura com suas joias e peles num discurso ferino de indiferença e preocupação

Falando ao Parlamento inglês, Elizabeth II disse que  irá “renegociar” a posição do Reino Unido com a famigerada União Europeia . Leia-se:  proposta de um referendo sobre a permanência do RU no bloco (em 2017): “Meu governo buscará reformas da União Europeia para o benefício de todos os Estados membros “, disse aquela que foi avacalhada pelos Sex Pistols na era punk. 
Avacalhada em seu Jubileu, década de 70, pelos punks (risos e sisos)


Rainha Elizabeth II prepara-se para ler discurso ao lado do príncipe Philip, duque de Edimburgo, durante a abertura da sessão legislativa no Palácio de Westminster, em Londres Foto: BEN STANSALL / AFP
Eliz, ontem ao lado do seu príncipe: joias e que mamas...

Agora, nessa abertura da sessão legislativa, sentada no seu trono da Câmara dos Lordes, com uma caríssima coroa, pensa em mais segurança, estabilidade econômica, empregos e reduzir o déficit para os seus “súditos.

O SESQUICENTENÁRIO DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS!

Caroll e uma das suas garotas



Tudo começou no dia  4 de julho de 1862, em Oxford, num barco, as irmãs Alice, Lorina e Edith Liddell ao lado do reverendo Charles Lutwidge Dodgson, passeavam com o amigo da família, cheio de histórias incríveis. 
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Alice tinha dez anos e pediu que ele escrevesse histórias para ela. (publicadas pela primeira vez em julho de 1865: como “Alice no País das Maravilhas”), e o reverendo usou o pseudônimo Lewis Carroll. Depois veio a continuação: “Através do espelho e o que Alice encontrou por lá (dois anos depois).
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150 anos depois de Alice depois cair na toca de um coelho branco, a obra já passou por palcos de teatro, balé, virou desenho animado, filme, quadrinhos etc. Cada geração interpreta o texto do escritor inglês ao seu modo e sob muitos ângulos diferentes.

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Carroll  teve uma ligação perigosa e excessiva com crianças. Era  matemático também fotógrafo, e seus trabalhos mais conhecidos são as imagens de meninas, normalmente filhas de casais amigos em poses quase “sensuais” e com pouca ou às vezes nenhuma roupa.

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O danado gato de Cheshire ou a muito louca Lagarta, Humpty Dumpty, o Chapeleiro Maluco, A Rainha, Coelho Branco, A lebre...  viverão enquanto houver planeta Terra!
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sábado, 23 de maio de 2015

Irlanda aprova casamento entre pessoas do mesmo sexo

Será que se entregarmos ao público esse tipo de decisão será assim em muitos países?

A Irlanda passa e vem passando por sérios problemas políticos e religiosos.
São guerreiros de longa data.
Lennon e Yoko fizeram esta canção nos anos 70.

Apreciem:

https://www.youtube.com/watch?v=MNwqV_HpMSE


Governo Federal promove cortes nos Orçamentos da Educação e Saúde, FMI aplaude

Não, não posso aplaudir esta: Governo Federal promove cortes nos Orçamentos da Educação e Saúde, FMI aplaude.

O que é isso?

Já não basta o massacre dos professores nas passeatas onde os governantes mandam espancar sem dó nem piedade os educadores dos seus filhos?

Salários defasados e sem perspectiva nenhuma de aumento salarial que cheguem (sequer) perto da galopante inflação?

Não sou contra o atual Governo, por não ver alternativas/ propostas  melhores.

Mas vamos devagar com isso... Cadê o dinheiro roubado?

Agora mais essa?

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Enquanto o mundo explode: boom! É o barulho da vida. Pense menos, ame mais (a vida não é bombom)

vamos nos mexer! Quem aí se importa com o fato de Cléo Pires voltar às boas com o pai Fábio Jr., hein? E com o Estado Islâmico dominar mais um sítio histórico no Oriente Médio? ora, a espada da Justiça está por dias a decepar a cabeça dos malditos, mesmo, não é?

Ruínas da cidade síria de Palmira (!) correm perigo nas mãos dos danados do E.I.

Mas vamos lá: A Irlanda vai ser o 1º país do mundo a levar às urnas a qustão do casamento oficial entre pessoas do mesmo sexo: UAU! Amanhã sai o ersultado do plebiscito. If you had the luck of an Irish...
Ex-vilão Felix (Mateus Solano) e mocinho Niko (Thiago Fragoso) protagonizam primeiro beijo gay masculino em novela da Globo em horário nobre no último capitulo da novela "Amor à Vida"
Ex-vilão Felix (Mateus Solano) e mocinho Niko (Thiago Fragoso) protagonizam primeiro beijo na boca masculino em novela da Globo em horário nobre ("Amor à Vida"), malvados tremei

E Victor Belfort? Injetou um bocado de testosterona nova e vai tentar a sorte novamente no ringue.


 Enquanto seu dono não vem, quem vem ao Brasil de novo depois de largar a esposa por algo  (uma holandesa engraçada) que ele considera bem melhor, é Antônio Bandeiras, ex-favorito de Madonna. Jogou Melanie fora.
Oh, my God: nothing is a forever thing...


Parece o slogan novo do bombom Sonho de Valsa; PENSE MENOS, AME MAIS!
Enquanto isso, só rola aquilo.
A gente volta depois do trampo, tá?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Machado de Assis bem pertinho da Princesa Isabel numa Missa campal? Uau!

Nós, que apreciamos tanto Machado de Assis estamos chocados com a divulgação de uma foto (de 1888), pelo Instituto Moreira Sales, que mostra o bruxo do Cosme Velho  (será?) bem pertinho da Princesa Isabel numa Missa campal em homenagem à... Abolição da escravatura. Uau!


Intimidade é a peste...

domingo, 17 de maio de 2015

Cândido e a sombra de árvores alheias

Encerrando o expediente com Cândido, do meu caro Voltaire; lembro de que o nosso herói, desse conto filosófico satírico,  se desilude ao vivenciar as dificuldades do mundo e troca o leibniziano lema de Pangloss, "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis", por  "devemos cultivar nosso jardim."
Lembrei agora do amado Fernando, o Pessoa, e seu heterônimo Ricardo Reis, a dizer: "segue teu destino...ama as  tuas rosas... o resto é sombra de árvores alheias..."

Woody Allen lança Homem Imperfeito

Woody Allen está em Cannes para lançar seu novo filme: O Homem Imperfeito, sobre um professor envolvido numa trama amorosa. Allen ainda alimenta planos de fazer um filme no Rio de Janeiro.


Aos 79, demonstra fôlego ímpar e está escrevendo uma série para a Amazon. Tomara que dê tempo para que ele filme seu produto em terras tupiniquins, não é? Gosto muito da pegada dele. O atual é o  47º filme desse poeta de Nova York.

Trata-se de um cineasta que trabalha com muito texto, ma não perde a oportunidade de explorar também o visual, com uma estética que lhe é bem própria.
 Sinto falta de gente como Woody. seu humor capitalista e questionador ao mesmo tempo retrata a sociedade do culto ao comércio da arte e certa reificação, e ao lado disso tem essa pegada existencialista que fascina e faz rir.
É cinema de autor. Coisa que faz falta na era tecnológica e fantasiosa na qual estamos mergulhados e que ainda não tem um estudo à altura.

sábado, 16 de maio de 2015

SANCIONAR OU VETAR QUESTÕES QUE ATINGEM EM CHEIO O Fator de Aposentadoria NO BRASIL?

 30% a menos no Fator de Aposentadoria. Quem se aposenta, agora, corre sério risco de ganhar bem menos: o "negócio" já passou na Câmara, vai passar no "Senado" e Dilma vai... vetar e criar comissão com trabalhistas (para discutir "questões" do Fator Previdenciário), buscar algo "intermediário". pois é: depois da queda com a Terceirização, o coice com o achatamento no salário do aposentado que contribui com uma fortuna em vida ativa.


Caça aos Trabalhadores

67 anos da criação do Estado de Israel

Enquanto judeus comemoram os 67 anos da criação do Estado de Israel, os palestinos protestam veementemente. Lembro-me de quando estive por lá, das coisas que presenciei; um incidente me chamou a atençaõ no Vale de Elá, onde David venceu o gigante Golias; um judeu contou uma piada sobre judeus e um outro começou a discutir com ele.

moisesneto: em Israel

quinta-feira, 14 de maio de 2015

"Clube Social da Boa Vista, Recife" (poema de moisesneto)


Sai da sinistra ponte da Boa Vista
desses suspiros , dos vampiros, ele mal te quer
e vem embora, pra Rua da Aurora, mulher!


Morte aos cães de Johnny Depp!

Johnny chegou na Austrália para filmar o enésimo Piratas do Caribe, levou seus dois cães, sem passar pelas autoridades competentes.



 Os animais foram detidos e podem ser executados em dois dias se não voltarem para os EUA!

TERRA DOS MENINOS PELADOS (FORMATO COMPACTADO)

Capítulo Um Havia um menino diferente dos outros meninos. Tinha o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada. Os vizinhos mangavam dele e gritavam:
 — Ó pelado! Tanto gritaram que ele se acostumou, achou o apelido certo, deu para se assinar a carvão, nas paredes: Dr. Raimundo Pelado. Era de bom gênio e não se zangava; mas os garotos dos arredores fugiam ao vê-lo, escondiam-se por detrás das árvores da rua, mudavam a voz e perguntavam que fim tinham levado os cabelos dele. Raimundo entristecia e fechava o olho direito. Quando o aperreavam demais, aborrecia-se, fechava o olho esquerdo. E a cara ficava toda escura. Não tendo com quem entender-se, Raimundo Pelado falava só, e os outros pensavam que ele estava malucando. Estava nada! Conversava sozinho e desenhava na calçada coisas maravilhosas do país de Tatipirun, onde não há cabelos e as pessoas têm um olho preto e outro azul. Capítulo Dois Um dia em que ele preparava, com areia molhada, a serra de Taquaritu e o rio das Sete Cabeças, ouviu os gritos dos meninos escondidos por detrás das árvores e sentiu um baque no coração. — Quem raspou a cabeça dele? perguntou o moleque do tabuleiro. — Como botaram os olhos de duas criaturas numa cara? berrou o italianinho da esquina. — Era melhor que me deixassem quieto, disse Raimundo baixinho. Encolheu-se e fechou o olho direito. Em seguida, foi fechando o olho esquerdo, não enxergou mais a rua. As vozes dos moleques desapareceram, só se ouvia a cantiga das cigarras. Afinal as cigarras se calaram. Raimundo levantou-se, entrou em casa, atravessou o quintal e ganhou o morro. Aí começaram a surgir as coisas estranhas que há na terra de Tatipirun, coisas que ele tinha adivinhado, mas nunca tinha visto. Sentiu uma grande surpresa ao notar que Tatipirun ficava ali perto de casa. Foi andando na ladeira, mas não precisava subir: enquanto caminhava, o monte ia baixando, baixando, aplanava-se como uma folha de papel. E o caminho, cheio de curvas, estirava-se como uma linha. Depois que ele passava, a ladeira tornava a empinar-se e a estrada se enchia de voltas novamente. Capítulo Três — Querem ver que isto por aqui já é a serra de Taquaritu? pensou Raimundo. — Como é que você sabe? roncou um automóvel perto dele. O pequeno voltou-se assustado e quis desviar-se, mas não teve tempo. O automóvel estava ali em cima, pega não pega. Era um carro esquisito: em vez de faróis, tinha dois olhos grandes, um azul, outro preto. — Estou frito, suspirou o viajante esmorecendo. Mas o automóvel piscou o olho preto e animou-o com um riso grosso de buzina: — Deixe de besteira, seu Raimundo. Em Tatipirun nós não atropelamos ninguém. Levantou as rodas da frente, armou um salto, passou por cima da cabeça do menino, foi cair cinqüenta metros adiante e continuou a rodar fonfonando. Uma laranjeira que estava no meio da estrada afastou-se para deixar a passagem livre e disse toda amável: — Faz favor. — Não se incomode, agradeceu o pequeno. A senhora é muito educada. — Tudo aqui é assim, respondeu a laranjeira. — Está se vendo. A propósito, por que é que a senhora não tem espinhos? — Em Tatipirun ninguém usa espinhos, bradou a laranjeira ofendida. Como se faz semelhante pergunta a uma planta decente? — É que sou de fora, gemeu Raimundo envergonhado. Nunca andei por estas bandas. A senhora me desculpe. Na minha terra os indivíduos de sua família têm espinhos. — Aqui era assim antigamente, explicou a árvore. Agora os costumes são outros. Hoje em dia, o único sujeito que ainda conserva esses instrumentos perfurantes é o espinheiro-bravo, um tipo selvagem, de maus bofes. Conhece-o? — Eu não senhora. Não conheço ninguém por esta zona. — É bom não conhecer. Aceita uma laranja? — Se a senhora quiser dar, eu aceito. A árvore baixou um ramo e entregou ao pirralho uma laranja madura e grande. — Muito obrigado, dona Laranjeira. A senhora é uma pessoa direita. Adeus! Tem a bondade de me ensinar o caminho? — É esse mesmo. Vá seguindo sempre. Todos os caminhos são certos. — Eu queria ver se encontrava os meninos pelados. — Encontra. Vá seguindo. Andam por aí. — Uns que têm um olho azul e outro preto? — Sem dúvida. Toda gente tem um olho azul e outro preto. — Pois até logo, dona Laranjeira. Passe bem. — Divirta-se. Capítulo Quatro Raimundo continuou a caminhada, chupando a laranja e escutando as cigarras, umas cigarras graúdas que passavam sobre enormes discos de eletrola. Os discos giravam, soltos no ar, as cigarras não descansavam — e havia em toda a parte músicas estranhas, como nunca ninguém ouviu. Aranhas vermelhas balançavam-se em teias que se estendiam entre os galhos, teias brancas, azuis, amarelas, verdes, roxas, cor das nuvens do céu e cor do fundo do mar. Aranhas em quantidade. Os discos moviam-se, sombras redondas projetavam-se no chão, as teias agitavam-se como redes. Raimundo deixou a serra de Taquaritu e chegou à beira do rio das Sete Cabeças, onde se reuniam os meninos pelados, bem uns quinhentos, alvos e escuros, grandes e pequenos, muito diferentes uns dos outros. Mas todos eram absolutamente calvos, tinham um olho preto e outro azul. Capítulo Cinco O viajante rondou por ali uns minutos, receoso de puxar conversa, pensando nos garotos que zombavam dele na rua. Foi-se chegando e sentou-se numa pedra, que se endireitou para recebê-lo. Um rapazinho aproximou-se, examinou-lhe, admirado, a roupa e os sapatos. Todos ali estavam descalços e cobertos de panos brancos, azuis, amarelos, verdes, roxos, cor das nuvens do céu e cor do fundo do mar, inteiramente iguais às teias que as aranhas vermelhas fabricavam. — Eu queria saber se isto aqui é o país de Tatipirun, começou Raimundo. — Naturalmente, respondeu o outro. Donde vem você? Raimundo inventou um nome para a cidade dele que ficou importante: — Venho de Cambacará. Muito longe. — Já ouvimos falar, declarou o rapaz. Fica além da serra, não é isto? — É isso mesmo. Uma terra de gente feia, cabeluda, com olhos de uma cor só. Fiz boa viagem e tive algumas aventuras. — Encontrou a Caralâmpia? — É uma laranjeira? — Que laranjeira! É menina. — Como ele é bobo! gritaram todos rindo e dançando. Pensa que a Caralâmpia é laranjeira. Capítulo Seis Raimundo levantou-se trombudo e saiu às pressas, tão encabulado que não enxergou o rio. Ia caindo dentro dele, mas as duas margens se aproximaram, a água desapareceu, e o menino com um passo chegou ao outro lado, onde se escondeu por detrás dum tronco. A terra se abriu de novo, a correnteza tornou a aparecer, fazendo um barulho grande. — Por que é que você se esconde? perguntou o tronco baixinho. Está com medo? — Não senhor. É que eles caçoaram de mim porque eu não conheço a Caralâmpia. O tronco soltou uma risada e pilheriou: — Deixe de tolice, criatura. Você se afogando em pouca água! As crianças estavam brincando. É uma gente boa. — Sempre ouvi dizer isso. Mas debicaram comigo porque eu não conheço a Caralâmpia. — Bobagem. Deixe de melindres. — É mesmo, concordou Raimundo. Eu pensava nos moleques que faziam troça de mim, em Cambacará. O senhor está descansando, hein? — É. Estou aposentado, já vivi demais. Raimundo levantou-se: — Bem, seu Tronco. Eu vou andando. — Espera aí. Um instante. Quero apresentá-lo à aranha vermelha, amiga velha que me visita sempre. Está aqui, vizinha. Este rapaz é nosso hóspede. Capítulo Sete A aranha vermelha balançou-se no fio, espiando o menino por todos os lados. O fio se estirou até que o bichinho alcançou o chão. Raimundo fez um cumprimento: — Boa tarde, dona Aranha. Como vai a senhora? — Assim, assim, respondeu a visitante. Perdoe a curiosidade. Por que é que você põe esses troços em cima do corpo? — Que troços? A roupa? Pois eu havia de andar nu, dona Aranha? A senhora não está vendo que é impossível? — Não é isso, filho de Deus. Esses arreios que você usa são medonhos. Tenho ali umas túnicas no galho onde moro. Muito bonitas. Escolha uma. Raimundo chegou-se à árvore próxima e examinou desconfiado uns vestidos feitos daquele tecido que as aranhas vermelhas preparam. Apalpou a fazenda, tentou rasgá-la, chegou-a ao rosto para ver se era transparente. Não era. — Eu nem sei se poderei vestir isto, começou hesitando. Não acredito... — Que é que você não acredita? perguntou a proprietária da alfaiataria. — A senhora me desculpa, cochichou Raimundo. Não acredito que a gente possa vestir roupa de teia de aranha. — Que teia de aranha! rosnou o tronco. Isso é seda e da boa. Aceite o presente da moça. — Então muito obrigado, gaguejou o pirralho. Vou experimentar. Capítulo Oito Escolheu uma túnica azul, escondeu-se no mato e, passados minutos, tornou a mostrar-se vestido como os habitantes de Tatipirun. Descalçou-se e sentiu nos pés a frescura e a maciez da relva. Lá em cima os enormes discos de eletrola giravam; as cigarras chiavam músicas em cima deles, músicas como ninguém ouviu; sombras redondas espalhavam-se no chão. — Este lugar é ótimo, suspirou Raimundo. Mas acho que preciso voltar. Preciso estudar a minha lição de geografia. Nisto ouviu uma algazarra e viu através dos ramos a população de Tatipirun correndo para ele: — Cadê o menino que veio de Cambacará? Eram milhares de criaturas miúdas, de cinco a dez anos, todas cobertas de teias de aranha, descalças, um olho preto e outro azul, as cabeças peladas nuas. Não havia pessoas grandes, naturalmente. — Cadê o menino que veio de Cambacará? — Que negócio têm comigo? resmungou o pequeno alarmado. Parece uma procissão. — Parece um “meeting”, disse uma rã que pulou da beira do rio. — Parece um teatro, cantou um pardal. Raimundo pôs-se a rir: — Que passarinho besta! Ele pensa que teatro é gente. Teatro é casa. — Eu estou falando nos sujeitos que estão dentro do teatro, pipilou o pardal. — Bem, isso é outra cantiga, concordou Raimundo. Capítulo Nove — Cadê o menino que veio de Cambacará? gritava o povaréu. — Essa tropa não sabe geografia, disse Raimundo. Cambacará não existe. — E por que é que não existe? perguntou a rã. — Não existe não, sinha Rã. Foi um nome que eu inventei. — Pois faz de conta que existe, ensinou a bicha. Sempre existiu. — A senhora tem certeza? — Naturalmente. — Então existe. A rã fechou o olho preto, abriu o azul e foi descansar numa poça d'água. — Cadê o menino que veio de Cambacará? — Estou aqui, pessoal, bradou Raimundo. Que é que há? O rio se fechou de repente e a multidão passou por ele num instante. Depois as margens se afastaram, a água tornou a aparecer. — Que rio interessante! exclamou Raimundo. Deve ter um maquinismo por dentro. — Por que foi que você fugiu de nós? perguntou o rapazinho que tinha falado sobre a Caralâmpia. — Espere aí. Eu já digo. Como é o seu nome? — Pirenco. — Que nome engraçado! Pirenco! Não há ninguém com esse nome. — Eu sou Pirenco, replicou o outro. — Pois sim. Não discutamos. Vamos ao caso do rio. Tem algum maquinismo por dentro? — Não tem maquinismo nenhum, disse uma garota de túnica amarela. Todos os rios são assim. — Claro! concordou Pirenco. Essa é a Talima. — Prazer em conhecê-la, Talima. Você é bonita. — E boa, interrompeu um menino sardento. Meio desparafusada, mas um coraçãozinho de açúcar. Aquela é a Sira. — O tronco me falou em vocês todos. Como vai, Sira? — Por que foi que você fugiu da gente? Raimundo ficou acanhado, as orelhas pegando fogo: — Sei lá! Burrice. Julguei que estivessem troçando de mim. Eu não tinha obrigação de conhecer a Caralâmpia. Quem é a Caralâmpia? — Onde andará ela? inquiriu o sardento. — Sumiu-se, explicou Talima. Foi uma menina que virou princesa. — Caso triste, gemeu uma criatura miúda, de dois palmos. Quando penso que pode ter acontecido alguma desgraça... Capítulo Dez Talima baixou-se e consolou o anão: — Cala a boca, nanico. Não há desgraça. — Imaginem que ela encontrou o espinheiro-bravo e espetou os dedos. — Encontrou nada! — Pode ter crescido e ido morar em Cambacará. — Não foi não, informou Raimundo. Não vi lá ninguém destas bandas. Como é a figura dela? — É uma menina pálida, alta e magra. — Princesa? — É. Sempre teve jeito de princesa. Agora virou princesa e levou sumiço. — Que infelicidade! choramingou o anão. — Vamos procurar a Caralâmpia, convidou Talima. Deixe de choradeira, nanico. — Já deixei, murmurou o anãozinho enxugando os olhos. Saíram todos, gritando, pedindo informações a paus e bichos. O sardento ia devagar, distraído. Puxou Raimundo por um braço: — Eu tenho um projeto. — Estou receando que anoiteça, exclamou Raimundo. Se a noite pegar a gente aqui no campo... Era melhor entrar em casa e deixar a Caralâmpia para amanhã. — O meu projeto é curioso, insistiu o sardento, mas parece que este povo não me compreende. — É sempre assim, disse Raimundo. Faltará muito para o sol se pôr? Capítulo Onze O anãozinho bateu na perna dele: — Nós nos esquecemos de perguntar como é que você se chama. — Raimundo. Sou muito conhecido. Até os troncos, as laranjeiras e os automóveis me conhecem. — Raimundo é um nome feio, atalhou Pirenco. — Muda-se, opinou o anão. — Em Cambacará eu me chamava Raimundo. Era o meu nome. — Isso não tem importância, decidiu Talima. Fica sendo Pirundo. — Pirundo não quero. — Então é Mundéu. — Também não presta. Mundéu é uma geringonça de pegar bicho. — Pois fica Raimundo mesmo. — Está direito. Eu queria saber como a gente se arranja de noite. — Que noite? — A noite, a escuridão, isso que vem quando o sol se deita. — Besteira! exclamou o anão. Uma pessoa taluda afirmando que o sol se deita! Quem já viu sol se deitar? — Essa coisa que chega quando a Terra vira, emendou Raimundo. A noite, percebem? Quando a Terra vira para o outro lado. — Ele vem cheio de fantasias, asseverou Talima. Escute, Fringo. Ele cuida que a Terra vira. Capítulo Doze Fringo, um menino preto, estirou o beiço e bocejou: — Ilusões. — Qual nada! Vira. Em Cambacará ninguém ignora isto. Vá lá e pergunte. Vira para um lado — tudo fica no claro, a gente, as árvores, as rãs, os pardais, os rios e as aranhas. Vira para o outro lado — não se vê nada, é aquele pretume. Natural. Todos os dias se dá. — É engano, interrompeu Fringo. — Não há noite? — Há o que você está vendo. — Não escurece, o sol não muda de lugar... — Nada disso. — Está bom. Preciso consertar o meu estudo de geografia. Continuaram a marcha, andaram muito, e nenhuma notícia de Caralâmpia. O sol permanecia no mesmo ponto, no meio do céu. Nem manhã nem tarde. Uma temperatura amena, invariável. — Deve haver um maquinismo de relógio lá por cima, calculou Raimundo. Vão ver que ele perdeu a corda e parou. — Quer ouvir o meu projeto? interrompeu o sardento. — Vamos lá, acedeu Raimundo. Mas antes me tire uma dúvida. Vocês não descansam nunca? — Descansamos, explicou o outro. Quando a gente está fatigada, deita-se e fecha um olho. — O olho preto ou o azul? — Isso é conforme. Fecha-se um olho. O outro fica aberto, vendo tudo. Capítulo Treze — Pois eu acho que está chegando a hora de voltar e descansar. — Voltar para onde? — Voltar para a beira do rio, entrar em casa, dormir. — Não vale a pena. Se quer ver o rio, é tocar para a frente. O rio das Sete Cabeças faz muitas curvas. Adiante aparece uma delas. Aqui nós nunca voltamos. Vou contar o meu projeto. — É bom. Conte. Mas andando à toa, sem destino, como é que vocês entram em casa? — Entrar em coisa nenhuma! A gente se deita no chão. — Macio, realmente. E as casas? — Não entendo. — Pois vou chamar o Pirenco. Venha cá, seu Pirenco. Onde estão as casas? Talima encolheu os ombros: — Ele veio de Cambacará cheio de idéias extravagantes. — Perguntas insuportáveis, acrescentou Sira. Raimundo observou os quatro cantos, não viu nenhuma construção. — Está bem, não teimamos. Vocês dormem no mato, como bichos. — Descansamos à sombra dessas rodas que giram, disse Fringo. — Debaixo dos discos de eletrola. Sim senhor, bonitas casas. E quando chove? — Quando chove? — Sim. Quando vem a água lá de cima, vocês não se ensopam? — Não acontece isso. Raimundo abriu a boca e deu uma pancada na testa: — Que lugar! Não faz calor nem frio, não há noite, não chove, os paus conversam. Isto é um fim de mundo. Capítulo Quatorze — Quer ouvir o meu projeto? segredou o menino sardento. — Ah! sim. Ia-me esquecendo. Acabe depressa. — Eu vou principiar. Olhe a minha cara. Está cheia de manchas, não está? — Para dizer a verdade, está. — É feia demais assim? — Não é muito bonita não. — Também acho. Nem feia nem bonita. — Vá lá. Nem feia nem bonita. É uma cara. — É. Uma cara assim assim. Tenho visto nas poças d'água. O meu projeto é este: podíamos obrigar toda a gente a ter manchas no rosto. Não ficava bom? — Para quê? — Ficava mais certo, ficava tudo igual. Raimundo parou sob um disco de eletrola, recordou os garotos que mangavam dele. Capítulo Quinze A cigarra lá de cima interrompeu a cantiga, estirou a cabecinha. Era uma cigarra gorda e tinha um olho preto, outro azul. — Qual é a sua opinião? perguntou o sardento. Raimundo hesitou um minuto: — Não sei não. Eles caçoam de você por causa da sua cara pintada? — Não. São muito boas pessoas. Mas se tivessem manchas no rosto, seriam melhores. A aranha vermelha deu um balanço no fio e chegou ao disco de eletrola: — Que história é aquela? — Palavreado à-toa, explicou a dona da casa. — À-toa nada! bradou o sardento. Cigarra e aranha não têm voto. Cada macaco no seu galho. Isto é um assunto que interessa exclusivamente aos meninos. — Eu aqui represento a indústria dos tecidos, replicou a aranha arregalando o olho preto e cerrando o azul. — E eu sou artista, acrescentou a cigarra. Palavreado à-toa. Raimundo esfregou as mãos, constrangido, olhou os discos e as teias coloridas que se agitavam. — Parece que elas têm direito de opinar. São importantes, são umas sabichonas. — Direito de dizer besteiras! resmungou o sardento. — Não senhor. A cigarra tem razão. Palavreado à-toa. — Então você acha o meu projeto ruim? — Para falar com franqueza, eu acho. Não presta não. Como é que você vai pintar esses meninos todos? — Ficava mais certo. — Ficava nada! Eles não deixam. — Era bom que fosse tudo igual. — Não senhor, que a gente não é rapadura. Eles não gostam de você? Gostam. Não gostam do anão, do Fringo? Está aí. Em Cambacará não é assim, aborrecem-me por causa da minha cabeça pelada e dos meus olhos. Tinha graça que o anão quisesse reduzir os outros ao tamanho dele. Como havia de ser? — Eu sei lá! rosnou o sardento amuado. O caso do anão é diferente. Parece que ninguém me entende. Vamos procurar os outros? Capítulo Dezesseis Deixaram a artista e a representante da indústria dos tecidos, andaram cinqüenta passos e foram encontrar os meninos brincando na grama verde, fazendo um barulho desesperado. — Isto é agradável, murmurou Raimundo. Tudo alegre, cheio de saúde... A propósito, ninguém adoece em Tatipirun, não é verdade? — Adoece como? — Julgo que vocês não vão ao dentista, não sentem dor de barriga, não têm sarampo. — Nada disso. — Não envelhecem. São sempre meninos. — Decerto. — Eu já presumia. Pois é, meu caro. Boa terra. Mas se todos fossem como o anãozinho e tivessem sardas, a vida seria enjoada. O sardento pigarreou: — É difícil a gente se entender. As crianças dançavam e cantavam, enfeitadas de flores, agitando palmas. — Viva a princesa Caralâmpia! gritavam. Viva a princesa Caralâmpia, que levou sumiço e apareceu de repente. Caralâmpia estava no meio do bando, vestida numa túnica azulada cor das nuvens do céu, coroada de rosas, um broche de vaga-lume no peito, pulseiras de cobras-de-coral. — Credo em cruz! gemeu Raimundo assombrado. Tire essa bicharia de cima do corpo, menina. Isso morde. O vaga-lume tremelicou, brilhante de indignação: — É comigo? — Não senhor, é conosco, informaram as cobras. Aquilo é um selvagem. Na terra dele as coisas vivas mordem. — Viva a Caralâmpia! repetia a multidão. Viva a princesa Caralâmpia! — Onde já se viu cobra servir de enfeite? suspirava Raimundo. Que despropósito! — Deixe disso, criatura, aconselhou Fringo, o menino preto. Você se espanta de tudo. Venha falar com a Caralâmpia. — Eu sei lá falar com princesa! exclamou Raimundo encabulado. — Ela é princesa de mentira, explicou Talima. É princesa porque tem jeito de princesa. Veja, Caralâmpia. Este é o Pirundo, que veio de Cambacará. — Pirundo não. Ficou estabelecido que eu me chamo Raimundo mesmo. — É. Ficou estabelecido que ele se chama Raimundo mesmo. — Aproxime-se, convidou Caralâmpia. Capítulo Dezessete O hóspede chegou-se a ela, desconfiado, espiando as cobrinhas com o rabo do olho. Curvou-se num salamaleque exagerado: — Como vai vossa princesência? — Princesência é tolice, declarou Pirenco. — Tolice é amarrar cobras nos braços, replicou Raimundo. Onde já se viu semelhante disparate? — Acabem com isso, ordenou Caralâmpia. Vamos deixar de encrenca. Por que é que não pode haver princesência? Isso é uma arenga besta, Pirenco. Raimundo bateu palmas: — Apoiado. Se há excelência, há princesência também. Está certo. — Claro! concordou Talima. Se há Raimundo e Pirenco, há Pirundo também. Pirundo está certo. — Não senhora. Pirundo está errado. — Pois está, concedeu Talima. — Está mesmo. Para que dizer que não está? triunfou Raimundo. Então você é princesa, hein? Como foi que você virou princesa? — Virando, respondeu Caralâmpia. A gente vira e desvira. — Logo vi, murmurou Raimundo. Pois é. Uma terra muito bonita a sua, princesa Caralâmpia. Estou com vontade de me mudar para aqui. Se eu vier, trago o meu gato. É um gato engraçado, diferente de vocês, com dois olhos verdes. E medroso, tem medo de rato. — Como é que ele se chama? perguntou a princesa. — Não tem nome não. Mas eu vou botar um nome nele. — Bote Pirundo, sugeriu Talima. — Boto nada! Vou procurar um nome bonito na geografia. A propósito, aquele rio que fecha é mesmo o rio das Sete Cabeças? — Sem dúvida, informou Sira. — Por que é que ele se chama rio das Sete Cabeças? — Porque se chama. Sempre se chamou assim. — Muito obrigado. Eu podia botar esse nome no meu gato. Mas ele só tem uma cabeça. — Bobagem! exclamou Pirenco. Gato das Sete Cabeças! Quem já viu isso? Bote Tatipirun. — Tatipirun é bonito, murmurou a princesa. — Pois fica sendo Tatipirun. Quando eu vier, trago Tatipirun. Ele vai estranhar e miar no princípio, depois se acostuma. Vamos brincar de bandido? — Aqui ninguém conhece esse brinquedo não, respondeu Sira. Vamos correr, saltar, dançar. — Isso é cacete. — Pois vamos fazer o anão virar príncipe. — Não dou para isso não, protestou o anãozinho. É melhor conversar com os bichos. Vamos procurar um bicho que saiba histórias compridas e bonitas. Capítulo Dezoito Partiram. Caminharam bem meia légua e encontraram uma guariba cabeluda, que andava com as juntas perras, escorada num cajado, óculos no focinho, a cabeça pesada balançando. Raimundo avizinhou-se dela, curioso: — Como é, sinha Guariba? A senhora, com essa cara, deve conhecer história antiga. Espiche uns casos da sua mocidade. — Eu não tive isso não, meu filho. Sempre fui assim. — Assim coroca e reumática? estranhou Raimundo. — Assim como vocês estão vendo. — Foi nada! A senhora antigamente era aprumada e vistosa. Sapeque aí umas guerras do Carlos Magno. — Eu sei lá! Estou esquecida. Sou uma guariba paleolítica. — Paleo quê? — Lítica. A princesa Caralâmpia arrepiou-se: — Que barbaridade! Ela está maluca. — Não está não, atalhou Raimundo. Meu tio diz essas atrapalhadas. É um homem que estudou muito, andou na arca de Noé e tem óculos. Direitinho a guariba. É do tempo dela e usa palavrões difíceis. — Traga também esse quando se mudar para aqui, lembrou Talima. — Ele não vem não. E não vale a pena. É um sujeito ranzinza e paleo como? — Lítico, respondeu a guariba. — Isso mesmo. Não vem não. Ele se enjoa de meninos, só gosta de livros. Um tipo sabido como nunca se viu. — Não serve, decidiu Talima. Tem a palavra, sinha Guariba. Conte uma história. Capítulo Dezenove — Eu conto, balbuciou o bicho acocorando-se. Foi um dia um menino que ficou pequeno, pequeno, até virar passarinho. Ficou mais pequeno e virou aranha. Depois virou mosquito e saiu voando, voando, voando, voando... — E depois? perguntou Sira. A guariba velha balançava a cabeça tremendo e repetia: — Voando, voando, voando... Fringo impacientou-se: — Que amolação! Ela pegou no sono. Tinha pegado mesmo. E falava dormindo, numa gemedeira: — Voando, voando, voando... — Vamos embora, pessoal, convidou Sira. Ela não acaba hoje. O bicho começou a chorar. — Sou uma guariba paleo... — Já sabemos, interrompeu Caralâmpia. Toca para frente, povo. Que significará aquele nome encrencado? — Vou perguntar a meu tio, prometeu Raimundo. Quando eu voltar aqui, explico a vocês. Capítulo Vinte A guariba paleolítica ficou tiritando, acocorada, a gemer. — Dorminhoca! rosnou Sira. Que teria acontecido ao menino que virou mosquito? — Parece que tornou a virar menino, disse Fringo. — Não dá certo, gritou o anãozinho. É melhor continuar mosquito. — Vamos consultar a guariba? — Não convém, interveio a princesa Caralâmpia. Ela perdeu a bola. Voando, voando... Nunca vi animal tão idiota. — Não senhora, protestou Raimundo. É um bicho sabido. Meu tio é aquilo mesmo, sabido que faz medo. Mas não fala direito. Resmunga. E engancha-se nas perguntas mais fáceis. A gente quer saber uma coisa, e ele se sai com umas compridezas, que dão sono. Vai resmungando, resmungando e muda no fim, acaba dizendo exatamente o contrário do que disse no princípio. — Isso é insuportável, bradou Pirenco. Não tolero conversa fiada, panos mornos. — Nem eu, concordou Talima. Pão pão, queijo queijo. — Preciso voltar e estudar a minha lição de geografia, suspirou Raimundo. — Demore um pouco, pediu Talima. Vamos ouvir a Caralâmpia. Por onde andou você quando esteve perdida, Caralâmpia? A Caralâmpia começou uma história sem pé nem cabeça: — Andei numa terra diferente das outras, uma terra onde as árvores crescem com as folhas para baixo e as raízes para cima. As aranhas são do tamanho de gente, e as pessoas do tamanho de aranhas. — Quem manda lá? São as aranhas ou a gente? perguntou Raimundo. — Não me interrompa, respondeu Caralâmpia. Os guris que eu vi têm duas cabeças, cada uma com quatro olhos, dois na frente e dois atrás. — Que feiúra! exclamou Pirenco. — Não senhor, são muito bonitos. Têm uma boca no peito, cinco braços e uma perna só. — É impossível, atalhou Fringo. Assim eles não caminham. Só se for com muleta. — Que ignorância! tornou Caralâmpia. Caminham perfeitamente sem muleta, caminham assim, olhe, assim. Pôs-se a saltar num pé: — Para que duas pernas? A gente podia viver muito bem com uma perna só. Tentaram andar com um pé, mas cansaram logo e sentaram-se na grama. Capítulo Vinte e Um — Preciso voltar, murmurou Raimundo. O anãozinho chegou-se a ele e soprou-lhe ao ouvido: — Tudo aquilo é mentira. Esta Caralâmpia mente!... Sira agastou-se: — Mente nada! Por que é que não existem pessoas diferentes de nós? Se há criaturas com duas pernas e uma cabeça, pode haver outras com duas cabeças e uma perna. Este anão é burro. — Estão mexendo comigo, choramingou o anãozinho. Mexem comigo porque eu sou miúdo. A princesa Caralâmpia puxou-o por um braço, deitou-o no colo e embalou-o: — Não chore, nanico. Na terra que eu visitei ninguém chora, apesar de todos terem oito olhos, quatro azuis e quatro pretos. As árvores têm as raízes para cima, as folhas para baixo e dão frutas no chão. Os frutos são enormes, as pessoas são como as aranhas. — Onde fica essa terra, Caralâmpia? perguntou o sardento. — Não muito longe, no fim do mundo, respondeu a princesa. A gente chega lá voando. — Como o mosquito da guariba, interrompeu o anão. Desconfio disso. Gente não voa. — Ora não voa! exclamou Raimundo. Em Cambacará os homens voam. — Voam de verdade ou de mentira? inquiriu Talima. — Voam de verdade. Antigamente não voavam, mas hoje andam pelas nuvens em aviões, uns troços de metal que fazem zum... Certamente a Caralâmpia viajou num deles. — Não foi não, disse Caralâmpia. Entrei num automóvel. — Os automóveis aqui andam pelos ares, eu sei, confirmou Raimundo. — Pois é. Entrei, mexi numa alavanca, o automóvel subiu, subiu, passou a lua, o sol e as estrelas. — E chegou à terra dos meninos duma perna só, grunhiu o anãozinho. Não creio. — Coitado, murmurou Talima. Este anão é um infeliz. Não faça caso, Pirundo. — A senhora me troca sempre o nome. Eu já lhe disse um milhão de vezes que me chamo Raimundo. Capítulo Vinte e Dois — Isso mesmo. Fique com a gente. Aqui é tão bom... — Não posso, gemeu Raimundo. Eu queria ficar com vocês, mas preciso estudar a minha lição de geografia. — É necessário? — Sei lá! Dizem que é necessário. Parece que é necessário. Enfim... não sei. Aí Raimundo entristeceu e enxugou os olhos: — É uma obrigação. Vou-me embora. Vou com muita saudade, mas vou. Tenho saudade de vocês todos, as pessoas melhores que já encontrei. Vou-me embora. — Volte para viver conosco, pediu Caralâmpia. — É, pode ser. Se acertar o caminho, eu volto. E trago o meu gato para vocês verem. Não deixe de ser princesa não, Caralâmpia. Você fica bonita vestida de princesa. Quando eu estiver na minha terra, hei de me lembrar da princesa Caralâmpia, que tem um broche de vaga-lume e pulseiras de cobras-de-coral. E direi aos outros meninos que em Tatipirun as cobras não mordem e servem para enfeitar os braços das princesas. Vão pensar que é mentira, zombarão dos meus olhos e da minha cabeça pelada. Eu então ensinarei a todos o caminho de Tatipirun, direi que aqui as ladeiras se abaixam e os rios se fecham para a gente passar. Raimundo afastou-se lento e procurou orientar-se. Os outros o seguiram de longe, calados. Andaram até o rio. Lá estavam à margem, perto do tronco, os sapatos e a roupa. O garoto escondeu-se no mato, vestiu-se de novo, tornou a pendurar no ramo a túnica azul que a aranha lhe tinha dado. — Devolução? perguntou o bichinho. — É, dona Aranha. Muito obrigado, não preciso mais dela. — Quer dizer que volta para Cambacará, não é? coaxou a rã na beira da poça. — Volto, sim senhora. Volto com pena, mas volto. — Faz tolice, exclamou o tronco. Onde vai achar companheiros como esses que há por aqui? — Não acho não, seu Tronco. Sei perfeitamente que não acho. Mas tenho obrigações, entende? Preciso estudar a minha lição de geografia. Adeus. Capítulo Vinte e Três Atravessou o rio com um passo. As crianças peladas foram encontrá-lo. Caminharam algum tempo e chegaram à serra de Taquaritu. Aí Raimundo se despediu: — Adeus, meus amigos. Lembrem-se de mim uma ou outra vez, quando não tiverem brinquedos, quando ouvirem as conversas das cigarras com as aranhas. Fiquei gostando muito delas, fiquei gostando de vocês todos. Talvez eu não volte. Vou ensinar o caminho aos outros, falarei em tudo isto, na serra de Taquaritu, no rio das Sete Cabeças, nas laranjeiras, nos troncos, nas rãs, nos pardais e na guariba velha, pobrezinha, que não se lembra das coisas e fica repetindo um pedaço de história. Quero bem a vocês. Vou ensinar o caminho de Tatipirun aos meninos da minha terra, mas talvez eu mesmo me perca e não acerte mais o caminho. Não tornarei a ver a serra que se baixa, o rio que se fecha para a gente passar, as árvores que oferecem frutos aos meninos, as aranhas vermelhas que tecem essas túnicas bonitas. Não voltarei. Mas pensarei em vocês todos, no Pirenco e no Fringo, no anãozinho e no sardento, na Sira, na Talima, na Caralâmpia. Você me troca sempre o nome, Talima. E eu quero bem a você, ando até com vontade de virar Pirundo, para não teimarmos se ainda nos virmos. Lembre-se do Pirundo, Talima. Longe daqui, fecharei os olhos e verei a coroa de rosas na cabeça da Caralâmpia, o broche de vaga-lume, as pulseiras de cobras-de-coral. Adeus, meus amigos. Que fim terá levado o menino da guariba? Quando um mosquito zumbir perto de mim, pensarei nele. Pode ser que esteja zumbindo o menino que a guariba deixou voando. Pobre da guariba. Está balançando a cabeça, falando só, e não acorda. Eu volto um dia, venho conversar com ela, ouvir o resto da história do menino que virou mosquito. E hei de encontrar a Caralâmpia com as mesmas rosas na cabeça, o vaga-lume aceso no peito, as cobras-de-coral nos braços. Vou prestar atenção ao caminho para não me perder quando voltar. E trarei uns meninos comigo. Os meninos melhores que eu conhecer virão comigo. Se eles não quiserem vir, trago o meu gato, que é manso e há de gostar de vocês. Adeus, seu Fringo. Adeus, seu Pirenco. Sira, Caralâmpia, todos, adeus! Não é preciso que me acompanhem. Muito obrigado, não se incomodem. Eu acerto o caminho. Adeus! Lembre-se do Pirundo, Talima. Raimundo começou a descer a serra de Taquaritu. A ladeira se aplanava. E quando ele passava, tornava a inclinar-se. Caminhou muito, olhou para trás e não enxergou os meninos que tinham ficado lá em cima. Ia tão distraído, com tanta pena, que não viu a laranjeira no meio da estrada. A laranjeira se afastou, deixou a passagem livre e guardou silêncio para não interromper os pensamentos dele. Agora Raimundo estava no morro conhecido, perto de casa. Foi-se chegando, muito devagar. Atravessou o quintal, atravessou o jardim e pisou na calçada. As cigarras chiavam entre as folhas das árvores. E as crianças que embirravam com ele brincavam na rua.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fui ao circo no final de semana, isso me trouxe lembranças do Recife de antes, e de mim mesmo, lá...

Dentre as mais de 30 peças minhas que tive encenadas por mim e por vários diretores, há duas pelasn quais sinto carinho especial, Draculin e o circo no espaço e Bruno e o circo.
O circo sempre esteve presente na minha vida, o Circo Garcia , o Orlando Orfei e tantos outros, no Cais do Apolo, no bairro da Encruzilhada (Recife)...

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Havia tigres (um quase me atacou e o domador me salvou na última hora, na fronteira entre o picadeiro e a primeira fila da plateia; havia elefantes que colocavam a pata sobre odaliscas alucinantes, macacos e cães com números absurdos, já vi rinocerontes e girafas no circo, números com leões.
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Sei que é politicamente incorreto maltratar animais com essa finalidade (ou por qualquer outra)...
os mágicos, trapezistas, tudo aquilo animava tardes noites inesquecíveis... (não: não quero mais animais no circo!)


Sim, já fui a circos recentemente, também, em vários lugares do mundo que visitei, mas não têm o glamour da minha infância; o de Soleil? Risos e sisos.
Ah, nunca me empolguei tanto com os palhaços...

Fui ao Le Cirque , no final de semanapassado e até que o algodão doce, pioca, churros, refrigerantes me fizeram bem, tinha até cavaco (uma espécie de biscoito pernambucano que adoro) lá na biera da praia de Piedade, mas é tão... diferente
E o globo da morte?

O primerio conto que escrevi, aos 8 anos, foi sobre dois palhaçoes que se separram porque um deles vai embora de um circo onde trabalhavam há mutio tempo juntos...


Tenho contato com circenses do Recife e penso em fazer ainda algum trabalho na área.


(Moisés Monteiro de Melo Neto)



domingo, 10 de maio de 2015

Vale a pena reler: O conto da ilha desconhecida (de José Saramago)




Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.
Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.
Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.
A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.
Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.
Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

                                         

José Saramago
 nasceu em 1922 na aldeia de Azinhaga (Golegã). Fez estudos secundários que, por dificuldades econômicas, não pôde prosseguir. Seu primeiro emprego foi o de serralheiro mecânico, tendo exercido depois, diversas outras profissões: desenhista, funcionário de saúde e de previdência social, editor, tradutor, jornalista.

Publicou o seu primeiro livro, um romance, em 1947. Colaborou como crítico literário na revista "Seara Nova". Em 1972 e 1973 fez parte da redação do jornal "Diário de Lisboa". Pertenceu à primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, desde 1985 a 1994, presidente da Assembléia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi diretor-adjunto do jornal "Diário de Notícias". A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor.

É Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Turim (Itália), de Sevilha (Espanha) e de Manchester (Reino Unido); membro Honoris Causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris); membro correspondente da Academia Argentina das Letras; membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo).
José Saramago foi laureado com o Prêmio Nobel da Literatura 1998 pela The Nobel Foundation.


Principais obras:

· Ano da Morte de Ricardo Reis (O). Lisboa, Caminho, 1982.
· Ano de 1993 (O). Lisboa, Futura, 1975.
· Apontamentos (Os). Lisboa, Seara Nova, 1976.
· Bagagem do Viajante (A). Lisboa, Futura, 1973.
· Cadernos de Lanzarote I. Lisboa, Caminho, 1994.
· Cadernos de Lanzarote II. Lisboa, Caminho, 1995.
· Cadernos de Lanzarote III. Lisboa, Caminho, 1996.
· Cadernos de Lanzarote IV. Lisboa, Caminho, 1997.
· Cadernos de Lanzarote V. Lisboa, Caminho, 1998.
· Conto da Ilha Desconhecida (O). Lisboa, Expo'98/Assírio&Alvim, 1997.
· Deste Mundo e do Outro. Lisboa, Arcádia, 1971.
· Discursos de Estocolmo. Lisboa, Caminho, 1999.
· Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa, Caminho, 1995.
· Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa, Círculo de Leitores, 1995.
· Evangelho segundo Jesus Cristo (O). Lisboa, Caminho, 1991.
· História do Cerco de Lisboa. Lisboa, Caminho, 1989.
· In nomine Dei. Lisboa, Caminho, 1993.
· Jangada de Pedra (A). Lisboa, Caminho, 1985.
· Levantado do Chão. Lisboa, Caminho, 1980.
· Manual de Pintura e Caligrafia. Lisboa, Moraes Editores, 1976.
· Memorial do Convento. Lisboa, Caminho, 1982.
· Moby Dick em Lisboa. Lisboa, Expo'98, 1996.
· Noite (A). Lisboa, Caminho, 1979.
· Objecto Quase. Lisboa, Moraes Editores, 1978.
· Opiniões que o D. L. Teve (As). Lisboa, Seara Nova/Editorial Futura, 1974.
· Poemas Possíveis (Os). Lisboa, Portugália, 1966.
· Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979
· Provavelmente Alegria. Lisboa, Livros Horizonte, 1970.
· Que farei com este livro? Lisboa, Caminho, 1980.
· Segunda Vida de Francisco de Assis (A). Lisboa, Caminho, 1987.
· Terra do Pecado. Lisboa, Minerva, 1947.
· Todos os Nomes. Lisboa, Caminho, 1997.
· Viagem a Portugal. Lisboa, Círculo de Leitores, 1981.

Paulo Mendes Campos e o seu Poema Didático



Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa. Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos, Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco. No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me, Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me, Morto do meu próprio pensamento, destruí-me, Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me, Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo, Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica, E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais. Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz, Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ? Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros. Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real. Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse. E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia - E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica - E não olhei mais a estrela - mas o rosto que refletiu o seu fulgor. Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ? O mundo, companheiro, decerto não é um desenho De metafísicas magnificas (como imaginei outrora) Mas um desencontro de frustrações em combate. nele, como causa primeira, existe o corpo do homem - cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar... E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito. Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora. O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor, Não filtraria no escuro um homem inconsequente, Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo - Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça. Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram - É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora, Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo, Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade, sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo, A vida enganou a vida, o homem enganou o homem. Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento De todos: se multipliquei a minha dor, Também multipliquei a minha esperança.